A biografia de Tyson não é uma qualquer, nem entre gente famosa. Dificilmente, mesmo entre campeões, se encontram tantas contradições e tantos altos e baixos, montanha-russa que faz dessa trajetória tema digno de um grande romance ou de um filme épico. Vindo da miséria e da delinquência, Tyson subiu na vida à custa dos punhos. Tornou-se um peso pesado literalmente indestrutível em seu período de glória. Envolveu-se com drogas, álcool, mulheres demais (e nem sempre as mais indicadas), e tomou um nocaute fatal ao ser condenado e preso por estupro. No ringue, de fera temível, passou a beijar a lona, desde que para ela foi mandado por um certo James Buster Douglas. Essa trajetória de ascensão, declínio e queda é lembrada no ótimo documentário de James Toback, intitulado, de maneira singela, ''Tyson''.
O centro do filme é uma vigorosa e reveladora entrevista que o autor faz com o lutador. A ela, se incorporam imagens de arquivo que rememoram a carreira de Tyson em suas diferentes etapas. Desde quando surgiu como novo fenômeno do boxe até o momento em que cai mais baixo, ao lutar contra Evander Holyfield, por falta de melhores recursos, morde a orelha do oponente em pleno ringue, é desqualificado pelo juiz e suspenso do boxe.
O que há de comovente no documentário de Toback é o esforço que Tyson faz para compreender a si mesmo. Ele se define como homem de extremos, não programado pela natureza para viver no meio fio da mediocridade. Em todos os sentidos. Por isso ganhou U$ 400 milhões e terminou na insolvência. Por isso foi da marginalidade ao topo do mundo e, deste, ao fundo do poço.
O filme trabalha com idas e vindas entre a entrevista e o material de arquivo. Vêem-se cenas das principais lutas, entremeadas com passagens inglórias como as brigas com a primeira mulher e a acusação de estupro que lhe custou três anos de prisão. Vêem-se na tela também algumas raras cenas da paz familiar de Tyson.
Outro aspecto importante da trajetória de Tyson é sua devoção ao treinador Cus D'Amato, de resto uma figura mitológica do boxe norte-americano. Foi D'Amato quem o tirou das ruas quando era um garoto arruaceiro e predestinado ao crime, e o transformou em vencedor. O método psicológico de D'Amato era curioso: respeito pelo medo era seu lema. O medo ensina e, quando sob controle, torna-se o maior aliado do pugilista, acreditava. O medo desperta os sentidos e aguça a atenção. Era sua doutrina. Tyson chora ao lembrar que D'Amato morreu sem vê-lo se tornar campeão do mundo: ''Perdi a minha referência'', confessa.
O filme desfaz também o mito de que Tyson fosse um intuitivo, que nada sabia de sua arte e havia chegado ao topo sem inspirar-se em ninguém. Pelo contrário, sabemos pelo filme que Tyson assistia obsessivamente a filmes de lutas dos grandes pugilistas do passado, de Joe Louis a Muhammad Ali. Era um estudioso do boxe e o praticou como poucos até ser derrotado por um modo de vida incompatível com a carreira atlética.
Menino de rua, marginal, sem pai, mãe prostituta, criado em reformatórios, Tyson teve carreira meteórica. Era mais baixo e mais leve que a maioria dos pesos pesados. Mas, imensamente forte e rápido, não deixava ninguém reparar em suas desvantagens. Durante um período de tempo considerável foi imbatível. Massacrava adversários no primeiro round e parecia inabordável. Não foi o melhor de todos os tempos - perde de longe, em técnica e carisma, para Ali. Mas sua ferocidade talvez não tenha paralelo na história, mesmo se comparada à de outros grandes que vieram da miséria e da marginalidade como Sonny Liston. Tyson perdeu para si mesmo, para a vida promíscua, as drogas, o álcool, o próprio ego. O filme é a história dessa tragédia pessoal. E assim, por paradoxo, o documentário torna-se um ensaio sobre a fraqueza do homem forte.

SERVIÇO
■ ­Tyson - Do­cu­men­tá­rio. EUA/ 2008, 90 min. Dir. Ja­mes To­back. 14 ­anos.

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