TV/ESTRÉIA - Grande operação de risco
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sábado, 13 de março de 2004
André Bernardo<br> TV Press 
Muito antes de estrear, ''Metamorphoses'' já oferecia elementos suficientes para se fazer uma novela da própria novela. A começar pelo interminável troca-troca de autores, que incluiu nomes como os de Mário Prata e José Louzeiro. Depois, muito falou-se de Tallyta Cardoso, a atriz que se submeteria a uma cirurgia plástica de verdade diante das câmaras. Por fim, a Record ainda surpreendeu a todos ao divulgar a data de estréia de ''Metamorphoses'': hoje, às 20 horas, uma estratégia inédita na tevê brasileira. ''Quem disse que não se pode estrear uma novela no domingo? Reconheço que o tiro é arrojado. Mas só arriscando vamos saber se acertamos no alvo ou não'', analisa Del Rangel, diretor artístico e de operação da Record.
Na verdade, não é só a estratégia de estréia que é arrojada. A trama de ''Metamorphoses'', que tem direção de Tizuka Yamasaki e autoria de Arlete Siaretta, dona da produtora Casablanca, mistura temas aparentemente díspares, como cirurgia plástica e máfia japonesa. ''Fomos buscar um tema novo, que fala diretamente às pessoas. A questão da cirurgia plástica, por exemplo, faz parte de todas as camadas da sociedade'', acredita ela. A mirabolante trama de ''Metamorphoses'' tem início em 1917, durante a Revolução Russa, quando três jóias valiosíssimas desaparecem misteriosamente. Já em 2004, uma delas reaparece em poder de Circe, a dona de uma clínica de estética e cirurgia plástica, interpretada por Lígia Cortez. ''A Circe é quem detona a confusão toda. Difícil ganhar um papel que agrega tanta importância!'', valoriza a atriz.
Perseguida pela temida Yakuza, a máfia japonesa, Circe sofre um acidente de carro e fica entre a vida e a morte. É sua irmã, Diana, vivida por Luciene Adami, quem faz a operação que vai movimentar toda a história. Sócia de Circe na clínica de cirurgia plástica, Diana troca o rosto da irmã com o de Lia, personagem de Vanessa Lóes, que morreu no mesmo dia. ''A Diana tem um pé na vilania. Embora seja bem-sucedida profissionalmente, tem uma ética duvidosa'', analisa Luciene. Quando acorda da cirurgia, Circe está amnésica e tem um rosto novo. Isso vai significar trabalho dobrado para Vanessa, que interpreta duas personagens na mesma novela. ''A Lígia já estava fazendo a Circe quando comecei a gravar. Por isso, pedi algumas fitas emprestadas à Tizuka para estudar melhor o comportamento da Circe'', observa Vanessa.
O entrecho policial de ''Metamorphoses'' vai ficar a cargo do detetive Marcos Ventura, interpretado por Paulo Betti, o responsável pela investigação do sumiço das jóias. ''Mas juro que ele não tem nada a ver com o Ed Mort'', brinca o ator, referindo-se ao detetive patético que interpretou no cinema. Paulo Betti é apenas um dos muitos ex-atores da Globo a dar expediente na Record. No elenco, estão também Joana Fomm, Zezé Motta, Luciano Szafir... ''A profissão de ator é mambembe por natureza. Pessoalmente, estou aqui para aprender mesmo'', discursa Szafir. Entre os novatos, Tallyta Cardoso chama a atenção por ter se submetido a uma cirurgia plástica de verdade. ''Não queremos que as pessoas pensem que a plástica é a solução para tudo. No meu caso, era um desejo antigo e está me fazendo bem'', garante a atriz, que corrigiu um defeito no nariz e pôs silicone nos seios.
Mais importante do que promover um debate sobre a ética na cirurgia plástica, ''Metamorphoses'' reativa o núcleo de teledramaturgia da Record, desativado desde 2001, quando foi ao ar a novela ''Roda da Vida''. ''A Record está trabalhando duro para chegar ao segundo lugar tanto na audiência quanto no faturamento. Nesse processo, novela é indispensável porque atinge a toda família'', ressalta Dennis Munhoz, presidente da emissora. Ao contrário de sua última incursão no gênero, ''Metamorphoses'' fortalece a parceria entre a Record e a Casablanca, iniciada há três anos com a série ''A Turma do Gueto'', programa recordista de audiência da emissora, com 12 pontos de ibope. ''Toda produção independente é sempre bem-vinda porque cria perspectivas de trabalho e gera competição no mercado. Todo mundo fica querendo fazer melhor que o outro'', raciocina a diretora Tizuka Yamasaki.
A novela ''Metamorphoses'' pode repetir o rebuliço causado por ''Xica da Silva'', exibida pela extinta Manchete entre 1997 e 1998. Na época, ninguém sabia dizer quem era Adamo Angel, o autor da trama. Mais tarde, veio a revelação: Adamo era, na verdade, Walcyr Carrasco, que tinha contrato com o SBT. Já na Record, desconfia-se que Charlote Karowski, que assina ''Metamorphoses'', seja a própria Arlete Siaretta. ''Mais sobre Charlote K, logo daremos notícia'', desconversa a produtora, que promete decifrar o mistério no decorrer da novela.
No final do ano passado, Arlete convidou Marcílio Moraes, co-autor de novelas como ''Vale Tudo'' e ''Mandala'', entre outras, para desenvolver o argumento que ela própria criou. Logo, porém, a parceria se mostrou inviável. ''Ficou claro que tínhamos concepções diferentes e, de comum acordo, rescindimos o contrato'', explica Marcílio. Em seguida, foi a vez de Mário Prata. Mas o autor de ''Estúpido Cupido'' também não aprovou as constantes intervenções de Arlete. ''O Boni nunca mexeu num texto meu, nem quando o ibope estava caindo. Não estou acostumado a trabalhar assim'', vocifera ele.
O último nome a integrar o projeto ''Charlote K'' foi José Louzeiro. Embora elogie o talento de Arlete, o autor de ''Corpo Santo'' e ''Guerra Sem Fim'', ambas da Manchete, pediu afastamento por motivos de saúde. ''Tenho problemas coronarianos. Entre a novela e o coração, optei pelo coração. Já escrevi novela antes e sei o quanto isso é cansativo'', esclarece.


