Os franceses inventaram o cinema no século retrasado e passaram os últimos cem anos tentando sofisticá-lo. Quando não se mostraram exauridos, ou não conseguiram fazer o que queriam nos próprios domínios, foram atrás de novidades em fronteiras alheias. E fazendo justiça ao monumental equívoco dos LumiSre, os irmãos inventores, típico de uma avaliação científica apressada e míope, atravessaram boa parte deste século encerrado ontem acreditando que as imagens em movimento eram exclusivamente arte, sem possibilidades de exploração comercial. Melhor para os americanos, que depois do ouro extraíram outras riquezas da Califórnia, agora sob a forma de celulóide. E, por paradoxal que pareça, foi a crítica francesa mais engajada no processo puramente artístico do cinematógrafo que acabou garimpando tesouros estéticos e culturais durante uma certa etapa da produção comercial hollywoodiana, décadas de 40 e 50, tempo de ascensão e glória do film noir.
Embora não seja rigorosamente o crSme de la crSme, faltando títulos que melhor se enquadrariam nos cânones do gênero, a programação que o canal pago Telecine Classic preparou para os 31 dias de janeiro merece carinhosa consideração. A partir de hoje, e sempre às 10 da noite, desfilam diante do espectador todas - repetindo: todas - as marcas registradas de um certo tipo de cinema mais popularmente conhecido como ‘‘filme de detetive’’ ou ‘‘drama criminal’’, realizado há cerca de 60, 50 anos. O título que inaugura a retrospectiva é ‘‘Quem Matou Vicki ?’’ (I Wake Up Screaming), dirigido em 1941 por Bruce Humberstone, com Betty Grable e Victor Mature. Dos 31 filmes previstos, 18 são inéditos no Telecine Classic. Alguns são pouco mais conhecidos, outros dramas menos votados e alguns até obscuros, mas que se encaixam nas exigências do rótulo noir, fornecendo ao espectador as pistas essenciais para uma viagem mais informada.
Mas a atração maior fica mesmo para o último dia, com a exibição da cópia ampliada de ‘‘A Marca da Maldade’’, realizado por Orson Welles em 1957. Expulso da sala de montagem pelos executivos da Universal, Welles teve que amargar uma cópia mutilada de 93 minutos, um pálido tratamento da tragédia que tinha filmado. Durante muitos anos circulou esta versão, até que em 1992 um memorando do já falecido Welles explicava em detalhes como o filme deveria um dia ser remontado. A Universal acabou concordando e um time de primeira linha foi chamado para executar o serviço. O resultado são mais 18 minutos de imagens, uma montagem como queria o diretor, uma música menos óbvia. Quase um novo filme, o fecho precioso para esta galeria de sombras na noite.

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