Há uns 15 anos, meu filho mais novo, então com seis anos, fez a pergunta crucial: ‘‘O que é que as pessoas faziam antes de existir a TV?’’ A pergunta, creio, define bem o papel que a televisão passou a representar na vida de todos desde seu advento ou, mais especialmente, desde que se popularizou de tal modo que hoje a maioria das casas (e barracos também) possui ao menos um aparelho de TV. Ver TV faz parte da vida de milhões neste imenso Brasil.
E a crença seria a de que atualmente com tantos canais de TV comerciais, com as redes de TV a cabo, com toda a evolução técnica o maior problema do espectador seria o de escolher entre tão grande número de opções. Naturalmente, como a gente pode ver e perceber, não é assim. As emissoras de TV parecem ter um tipo de visão sobre as preferências do público bem dissociada da realidade.
Um exemplo: no sábado, normalmente, a programação é uma droga. A Rede Globo, a principal rede de TV comercial, que normalmente fica com metade da audiência não dá maior atenção ao sábado porque, dizem, é o dia em que as pessoas saem. Mas, quem sai? Claro, os segmentos A e B. Mas a maioria, chamada C, D ou até E não sai, não vai jantar em restaurantes, não vai ao teatro, sequer ao cinema. Fica em casa. É o dia de ver TV sem preocupação com o horário, porque no domingo pode dormir até mais tarde. Só que, tem o pior para ver.
As operadoras de cabo poderiam - embora atendendo a um público menor - suprir a falha. Até tentam. No sábado há lançamentos de filmes (na HBO e no Telecine 1, principalmente). Mas se o filme não agrada, as opções se restringem. Com uma agravante: embora as operadoras, como em Londrina, ofereçam revistas em que está listada a programação do mês, falta maior visão (ou interesse) para divulgar melhor certos eventos.
Por exemplo, ontem, a HBO teria uma excelente retrospectiva de cinema com o competente Rubens Ewald Filho. Mas a gente só sabe disto porque viu, por acaso, uma chamada. Na GNT (como no Mundo) há biografias de grandes nomes. Algumas interessantes. Só que raramente há uma divulgação mais direta sobre isto. O espectador tem de ficar apertando o controle remoto e, se tiver sorte, acaba pegando, por acaso, uma biografia boa.
O quadro deste fim de ano comprova tudo o que foi assinalado. Os especiais da TV comercial são os mesmos de sempre. Como os programadores devem pensar que todos os brasileiros vão à praia (ou a algum baile) no dia 31, pouco se preocupam em oferecer atrações boas para o período. Jogam para a gente as mesmas fórmulas de todos os anos. E a gente faz o quê? Aquilo que respondi, há 15 anos, ao meu filho: antes de existir a TV, a gente conversava.
Com a programação que nos oferecem, esta pode ser a opção. Desligar a TV e conversar. Como não creio que isto seja o que agrade aos responsáveis pela TV, entendo que um bom propósito para este 99 que está começandoé o de melhorar um pouco (melhorar muito talvez seja pedir demais) o que oferecem ao pobre espectador que não tem muitas outras opções neste tempo de recessão e crise.

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