Ranulfo Pedreiro
Aos 11 anos, Francisca Edwiges Gonzaga, a Chiquinha, escreveu sua primeira melodia. A capacidade de compor se revelaria um problema para uma mulher que viveu na segunda metade do século passado. Com a música - e às vezes por causa dela - Chiquinha Gonzaga enfrentou desilusões amorosas e encampou posturas que chocaram a sociedade, como a defesa do abolicionismo e da República.
Já no casamento forçado com Jacinto Amaral, aos 16 anos, o temperamento libertário provocou problemas. O marido percebeu que a interpretação de Chiquinha ao piano ia além do entretenimento. Observando a seriedade que ela dedicava ao instrumento, chegou ao extremo de proibi-la de tocar. Chiquinha Gonzaga foi além, comprando um violão, considerado instrumento de boêmios e malandros. Amaral ficou ainda mais irritado. Entre a música e o casamento, a compositora optou pela primeira.
Chiquinha Gonzaga se tornou um dos nomes mais importantes dos primórdios da música brasileira. Boêmia, frequentou cabarés, participou de rodas de seresteiros e ajudou a configurar o choro, a marchinha e o samba, assumindo a influência da cultura negra - era filha de uma mestiça com um tenente. A personagem é protagonista da minissérie homônima de Lauro César Muniz, que estréia às 21h50 na Globo com Regina e Gabriela Duarte.
O conservadorismo falou mais alto e a sociedade retrucou às ousadias de Chiquinha Gonzaga. Além de se separar do marido, ela teve dificuldades em manter outros relacionamentos. Expulsa da família pelo pai, a compositora sobreviveu ministrando aulas de piano. Seu talento chamou a atenção do flautista Joaquim José da Silva Callado, entre outros instrumentistas.
No momento em que sua carreira parecia engrenar, Chiquinha Gonzaga se apaixonou por um engenheiro, acompanhando-o em seu trabalho pelo interior de Minas Gerais. Malfalada na corte, abandonou o namorado quando percebeu que não era a única mulher que lhe atraía as atenções.
Para contornar as crises emocionais, mergulhava em questões políticas, frequentando rodas de abolicionistas e republicanos. A boemia também lhe trouxe problemas financeiros, e Chiquinha Gonzaga foi obrigada a negociar nas ruas suas próprias partituras. Além das aulas de piano, tocava à noite em bares, festas e cabarés.
Ao mesmo tempo em que se tornava popular, com músicas como ‘‘Corta-Jaca’’, ‘‘Atraente’’ e ‘‘Menina Faceira’’, Gonzaga lutava para diminuir o preconceito que cercava o violão, realizando um concerto com o instrumento em 1886. Em ‘‘Aperte o Botão’’, provocou políticos e quase foi presa.
‘‘Ó Abre Alas’’, talvez sua música mais conhecida, foi escrita em 1899 para o cordão carnavalesco Rosas de Ouro. Embora a música seja extremamente popular, na época pode ter passado em branco. Segundo o crítico Ary Vasconcelos, a melodia só foi popularizada anos depois de sua composição.
Chiquinha Gonzaga também levou a musicalidade brasileira ao exterior, divulgando-a pela Europa. Voltando-se ao teatro, a compositora escreveu diversos temas e fundou, em 1917, a Sociedade Brasileira dos Autores Teatrais - Sbat. Ela ficou à frente do órgão até a morte, em 1935.
Como compositora, Chiquinha Gonzaga é muito comentada mas pouco divulgada. Embora suas músicas sejam interpretadas com frequência em discos instrumentais, a maior parte de sua obra permanece praticamente desconhecida.
Recentemente, a autora foi regravada por Olívia Hime, que descobriu no Sbat muitas partituras que ainda não foram editadas. O disco ‘‘Serenata de uma Mulher’’, lançado pela Kuarup no final do ano passado, trouxe músicas inéditas e resgatou melodias que estavam caindo no esquecimento, fruto da obra da primeira maestrina brasileira que deixou, entre muita polêmica, cerca de 2 mil obras.

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