São Paulo, 21 (AE) - Luchino Visconti declarou certa vez que gostaria que escrevessem em sua lápide, à maneira de epitáfio: "Amava Verdi e o melodrama." Esses dois amores estão presentes no operístico "Sedução da Carne", que o Eurochannel, da TVA, mostra hoje às 22 horas. Só que era próprio de um grande artista, como Visconti, transformar o melodrama em história. É o que ocorre nesse filme suntuoso.
Começa com uma encenação de Il Trovatore. A câmera acompanha a ação no palco, corta para a platéia e o espectador percebe que está no famoso Teatro Fenice, em Veneza. Na hora em que o coro canta "Às armas, às armas", panfletos e flores nas cores da bandeira italiana, verde, vermelho e branco, começam a cair sobre o público, lançados dos camarotes superiores. A época é a Itália no quadro do Risorgimento. Os nacionalistas italianos protestam contra os ocupantes austríacos.
É nesse quadro que se desenrola a história da paixão da condessa Lívia Serpieri pelo oficial austríaco Franz Mahler. Lívia é Alida Valli. Visconti queria fazer o filme com Silvana Mangano. Depois, tentou Ingrid Bergman, mas terminou cooptado pela empresa produtora Lux, que tinha Alida sob contrato. Ele nunca se arrependeu. Ofereceu à atriz de Alfred Hitchcock ("Agonia de Amor) e Carol Reed ("O Terceiro Homem") o mais belo papel de sua carreira. O adjetivo "viscontiano" foi desde então incorporado ao nome de Alida.
Visconti também queria Marlon Brando no papel de Franz Mahler. O ator chegou a ir a Roma para os preparativos, mas era a época do macarthismo, o diretor, embora aristocrata, era um notório comunista e Brando foi dissuadido a desistir do papel. Visconti fez o filme com Farley Granger, outro ator hitchcockiano (de "Festim Diabólico" e "Pacto Sinistro). Granger era mais limitado, mas não compromete. Nenhum ator compromete dirigido pelo grande Visconti.
A história, adaptada de um livro de Camilo Boito, fala de amor destrutivo. O clima mórbido é realçado pela música - a "Sinfonia número 7, em Mi Maior", de Anton Bruckner. Além da dupla de amantes, há um terceiro personagem importante - o barão Ussoni, interpretado por Massimo Girotti, que havia feito o clássico "Ossessione com o diretor. Ussoni é um arauto dos novos tempos que vão surgir. Visconti, por sua opção ideológica, poderia tê-lo escolhido como alter ego. Seu coração bate mais forte por Lívia. O filme termina falando de uma derrota individual no contexto de uma derrota coletiva - a batalha de Custoza, que os italianos perderam. A contradição sempre foi fundamental em Visconti. O discurso de Ciro encerra, no fim, o sentido de "Rocco e Seus Irmãos", mas o diretor é mais tocado pelo cristianismo culpado de Rocco.
Lívia mente, esquece seus ideais, avilta-se, tudo pelo amor de Franz Mahler. Abandonada por ele, chega à delação. Franz antecipa "O Leopardo". Como outros aristocratas viscontianos, carrega os gérmens da própria destruição. Numa cena, diz a Lívia que estão vivendo o fim de sua época. "A áustria-Hungria vai desaparecer, estamos condenados." Por meio desses personagens, da sua danação, o grande cineasta permanece fiel a uma afirmação que fez: "Talvez todos os meus filmes contêm a história de uma degradação, a dos Viscontis de ontem e de hoje."
Rodado entre agosto de 1953 e fevereiro de 1954, "Sedução da Carne" teve colaboradores ilustres: Tennessee Williams e Paul Bowles colaboraram com a viscontiana Suso Cecchi dAmico na redação dos diálogos. E foi um filme decisivo no contexto do cinema italiano da época. Encerrada a grande fase do movimento neo-realista, que floresceu na Itália derrotada na guerra, o cinema italiano diversificava-se. Roberto Rossellini, com a desdramatização do roteiro de Romance na Itália", ia lançar os fundamentos do cinema moderno. Federico Fellini e Michelangelo Antonioni transformaram o neo-realismo em realismo interior, Visconti o transformou em História (com maiúscula), indo às origens para discutir a identidade italiana. "Sedução da Carne é obra de gênio. Serviço - Sedução da Carne, de Luchino Visconti. Amanhã (22), às 22 horas. Eurochannel/TVA.

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