TV paga exibe filmes de Ang Lee e John Woo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de março de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha 2 
DivulgaçãoEmma Thompson e Hugh Grant em Razão e Sensibilidade: diretor oriental em filme ambientado na Inglaterra vitorianaPara estupefação de Hollywood, Razão e Sensibilidade (HBO, 20h30) ficou muito próximo de bater alguns recordes de bilheteria no decorrer de 1995. Atrevidamente, uma roteirista novata e ainda por cima inglesa, Emma Thompson, e um diretor taiwanês, Ang Lee, combinaram seus talentos para empreender a delicada adaptação de uma das mais apreciadas novelas da escritora Jane Austen - bobagem comparar filme e livro, ambos com intensa e rica vida própria. E ainda se o resultado na tela não é tão afiado quanto a prosa de miss Austen, não obstante é uma adaptação elegante e inteligente, mais do que se poderia esperar nas circunstâncias.
Como sempre, o universo feminino é o centro das atenções de Jane Austen. Como sempre, suas personagens são little women, mulherezinhas que combinam fragilidade aparente com recato, despreendimento, paixão, disfarçada visão pragmática, sensibilidade e...razão. Assim são as irmãs Elinor (Emma Thompson) e Marianne (Kate Winslet), apanhadas no contrapé do desequilíbrio social, sufocadas pelas finanças em baixa e pelas convenções culturais da aristocracia rural inglesa do século 19. Diante de condições familiares adversas, elas iniciam a busca de atraentes e bem-nascidos maridos - felicidade, no caso, é apenas uma consideração secundária.
Brilhantemente conduzido por Ang Lee, Razão e Sensibilidade surpreendeu muita gente, que considerou excentricidade a escolha de um oriental para dirigir uma comédia ligeira sobre costumes britânicos na era vitoriana. Esqueceram, ou nem notaram, que os trabalhos anteriores de Lee, A Arte de Viver, O Banquete de Casamento e Comer, Beber, Viver, a rigor se distanciam muito pouco da visão de mundo da escritora. Em ambos os casos - filmes e romances - temos sutis estudos sobre costumes sociais elaborados com delicadeza. Especialmente onde o casamento monopoliza intenções e atitudes, uma poderosa e estruturada força social ordena que propriedades e dinheiro tenham precedência sobre o amor. A prosa irônica de miss Austen encontrou nas imagens de Ang Lee um encaixe como há muito não se via, talvez desde a parceria Milan Kundera-Philip Kauffman em A Insustentável Leveza do Ser.
DivulgaçãoJohn Travolta e Christian Slater em A Última Ameaça: thriller de ação carregado de suspense
Extremos opostosSe a estréia de Ang Lee nos Estados Unidos foi um mar de tranquilidade com A Arte de Viver, em 92, o desembarque de John Woo em Hollywood não confirmou a fama de cineasta delirante que o precedia: além de Jean-Claude Van Damme,O Alvo tinha pouco das sequências alucinatórias que o consagraram a partir da usina de ação desenfreada made in Hong Kong. Até o momento parece que um esquema de produção mais amplamente dolarizado vem inibindo os pendores autênticos do cinema coreográfico de John Woo: seu filme seguinte, A Última Ameaça (Telecine, 21 horas), embora superior a O Alvo, ainda não encontrou o exuberante formato B dos filmes mais quentes do diretor.
De qualquer maneira, os americanos já têm a certeza de que o autor Woo pode a qualquer momento realizar um sólido filme de ação, bem dentro dos padrões da fórmula. Os trabalhos do diretor em Hong Kong , principalmente O Matador, Uma Bala na Cabeça e Fervura Máxima eram fusões de violência erotizada e sentimentos altruístas, fascinantes sobretudo porque mostravam coisas que os filmes americanos de ação não podiam - ou não queriam mostrar. A Última Ameaça ainda não foi bem isso, mas passou perto. Parece só uma questão de tempo.
Razoavelmente interessante, moralmente sem ambiguidades e meticulosamente trivial, Broken Arrow pode ser incluído, sem deméritos ou vantagens, no filão mais visível da vertente hollywoodiana que tem como referência principal a violência em suas mais diversas manifestações. John Travolta é o piloto vira-casaca que resolve chantagear o governo americano utilizando dois mísseis roubados - o broken arrow do título, ficamos sabendo, é o código militar para ogiva perdida. Christian Slater, um ex-companheiro, deve impedir a todo custo um desfecho trágico. E Samantha Mathis entra meio sem jeito entre os dois. John Woo nunca se deu muito bem criando personagens femininos; o tipo corajoso mas apagado criado por Samantha não é exceção. O que interessa é Travolta-Slater e seu relacionamento militarizado, o tempo todo trocando socos, tiros e olhares significativos enquanto uma guitarra-baixo vibra portentosamente. Não há duvida: é um dos filmes mais insistentemente homo-eróticos dos últimos tempos.


