TV mostra o mestre dos rebeldes musicais
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sexta-feira, 27 de setembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Rogério Duprat, o mito, andava esquecido. Mas logo após festejar o aniversário de 70 anos, em fevereiro último, ele foi homenageado por um grupo de artistas de música eletrônica em São Paulo. Agora, a TV Cultura presta-lhe um tributo com a exibição de um documentário que recapitula sua trajetória de compositor, arranjador e maestro.
O especial, intitulado ''Rogério Duprat Oirégor Tarpud'', vai ao ar hoje às 22h30 contando as incursões do mestre pela Tropicália, movimento de Música Nova, trilhas sonoras e jingles publicitários. Com 52 minutos de duração, traz depoimentos de ilustres como Caetano Veloso, Décio Pignatari, Tom Zé, Walter Lima Júnior, Gilberto Mendes, Rita Lee, Damiano Cozzella, Walter Hugo Khouri e Willy Corrêa de Oliveira.
Duprat construiu sua reputação ligando-se sempre ao que havia de novo e inventivo na música. Hoje vítima de uma progressiva perda de audição, atuou na fronteira do erudito e o popular forçando a fusão entre as duas searas. Em 1961, idealizou o manifesto ''Música Nova'', no qual rompeu com o nacionalismo vigente na composição tornando-se pioneiro nas experimentações eletrônicas, seriais e aleatórias.
Foi também um dos primeiros artista de formação rigorosa a descer do olimpo clássico para se contaninar com a estridência das bandas de rock. Nos anos 60, participou de inúmeras manifestações artísticas provocativas chegando a reger orquestra com um macacão da Shell. Em alguns concertos, usava jornal no lugar da partitura, além de apresentar peças executadas só com eletrodomésticos.
Foi ele quem apresentou os Mutantes a Gilberto Gil colocando-os juntos no palco para tocar a música ''Domingo no Parque'' num daqueles célebres festivais da Record. Na famosa foto de lançamento do movimento tropicalista, estampada na capa do álbum ''Tropicália'', Duprat aparece segurando um penico como se fosse uma xícara de chá.
O documentário, dirigido por Pedro Vieira, pinça dos arquivos imagens de ensaios realizados na casa de Duprat com Gal Costa, Gilberto Gil, Mutantes e Caetano Veloso. Mostra ainda peças inéditas do compositor como ''Cinco pequenas peças para violoncello solo'', de 1958, interpretada pela primeira vez por Antônio del Claro; e trechos da única gravação de ''Organismo'', obra serial composta sobre poema de Décio Pignatari.
Hoje vivendo no anonimato, recluso num sítio em Itapecerica da Serra (SP), o maestro já não ouve rádio nem música devido ao problema auditivo. Seus últimos trabalhos foram nos anos 90, quando assinou arranjos para Rita Lee e Lulu Santos. Embora seu nome seja mais lembrado como colaborador em capítulos importantes da música brasileira, Rogério Duprat deixou uma razoável discografia para ser descoberta pelas novas gerações.
O legado obscuro inclui desde álbuns orquestrais de bossa nova, um LP para a Varig intitulado ''Ritmos no Ar'', outro patrocinado pela Rhodia batizado ''Nhô Look'' (reunindo músicas caipiras), além do ítem de colecionador ''Banda Tropicalista do Duprat'' que foi gravado em 1968 com participação dos Mutantes.
O documentário, que merece até ser gravado como documento histórico, é uma co-produção entre a Rede Cultura e a Grifa Cinematográfica.


