O humor na TV não é mais o mesmo. Ficar sentado no banco de uma praça, vendo a piada passar, já cansou o telespectador. Piadinhas sobre gays, maridos traídos e gostosonas não têm mais graça. Mas o que dizer sobre os ''homens de preto'' que invadem festas, questionam políticos, artistas e até fingem desligar a câmera diante de seu entrevistado? E sobre uma turma que nasceu num programa de rádio e ganhou fama na TV por suas brincadeiras - às vezes de mau gosto ? Programas como ''CQQ'' (Band) e ''Pânico na TV'' (RedeTV!) funcionam como um refresco. Mas o telespectador quer mais.

''A mobilidade vai mudar a televisão, vai mudar os hábitos, vai mudar os espectadores'', diz Nelson Hoineff, jornalista, crítico de cinema, produtor, diretor de televisão e atual presidente do Instituto de Estudos de Televisão (IETV), organização dedicada ao estudo e aprimoramento da produção e da cultura televisiva.

Programas como ''CQC'' (Band) e ''Pânico'' (RedeTV!) muitas vezes exageram. O limite do humor na TV está cada vez mais tênue?

O humor na TV mudou bastante, tornou-se mais irreverente e, o que é mais importante, eliminou as fronteiras entre os espaços do programa e do seu objeto. Ao fazer isso, contudo, o humor passou também a invadir a privacidade das pessoas. Abandonou a distinção entre políticos, celebridades e gente comum. Quando essa gente se torna vítima da invasão, a situação se complica. São forças desiguais - um programa de TV de um lado, um cidadão humilde de outro. A televisão, neste momento, passa a olhar verticalmente para as pessoas, que é a pior coisa que ela pode fazer. Torna-se opressora, arrogante, vil. Desperta a nostalgia pelo controle, pela censura. É hora então de examinar os seus limites.

O ''CQC'' garante que faz jornalismo e usa do humor para cumprir sua função social, que é incitar. Já o ''Pânico'' abusa das brincadeiras, mas diz que informa o público para o qual é dirigido. O senhor concorda com isso?

Os dois programas praticam formas de humor que guardam grandes diferenças e grandes semelhanças. Estimular a dúvida e a transgressão está entre as melhores coisas que a TV aberta pode fazer pela sociedade. Por isso, essa é uma coisa muito delicada e que não pode deixar espaço à leviandade.

Em muitos casos, os entrevistados não gostam do tipo de abordagem. Prova disso são os processos que alguns programas já acumulam. Vale a pena pagar esse preço (de ir à Justiça) para conseguir um furo, uma declaração exclusiva ?

Artistas e políticos são pessoas públicas. Expor-se faz parte de suas opções. Com repórteres, humoristas e empresários de televisão ocorre o mesmo.

Programas como ''A Praça é Nossa'' (SBT) e ''Zorra Total'' (Globo) persistem na TV. Essa fórmula de humor já não se desgastou?

Tanto essa forma de humor quanto o tipo de televisão que abriga esse tipo de programa. Isso já acabou.

''CQC'' foi última novidade da área de humor na TV, mas é uma versão de um programa argentino. Falta criatividade na televisão brasileira?

O principal negócio da TV hoje é a venda de formatos. O Brasil é um grande importador de formatos - americanos, holandeses, de toda parte - e cria muito pouco para a dimensão de sua televisão.

O sitcom, que tem forte tradição nos Estados Unidos, ainda não conquistou o brasileiro. Por que?

O sitcom nunca emplacou no Brasil, a meu ver muito mais pelo formato do que pela falta de bons roteiristas. Há no Brasil uma tradição de telenovela no horário nobre que não existe em nenhum outro lugar do mundo. É um formato consolidado, muito embora esteja em decadência. Quando for substituído, certamente o será por produtos adequados às grades digitais, entre os quais dificilmente se incluirá os sitcoms.

Na sua opinião, qual é o destino da programação da TV aberta já que, muitas vezes, ela é nivelada por baixo e, na maioria das vezes, há a exploração de tragédias?

A TV aberta está em acelerado processo de desmassificação. Há pouco tempo era normal 70% da população brasileira estar vendo a mesma coisa ao mesmo tempo. Isso é esquizofrenia e está em extinção. As pessoas já não precisam mais assistir a novela das 8 para se sentirem parte da sociedade. O consumo cultural está se individualizando. Programas estúpidos continuarão sendo feitos para pessoas estúpidas. A TV massificante e entorpecente que conhecemos está deixando de existir. O espectador terá suas demandas atendidas e será cada vez menos domesticado. Isso está acontecendo agora. Quem tentar ir na outra direção vai morrer na praia.

O telespectador pode esperar alguma novidade na televisão para 2009?

Mobilidade. A mobilidade vai mudar a televisão, vai mudar os hábitos, vai mudar os espectadores e os modelos de negócio. A televisão saiu da sala e foi para o bolso do espectador. Esse espectador, que é jovem, acaba de se dar conta de que ele não é gado. Se a TV não atender à sua demanda, a televisão que ele tem no bolso serve para um bocado de outras coisas.

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