TURTURRO
FAZ A ELEGIA
DO TEATRO
‘‘Illuminata’’ é uma história universal que celebra a vida em todas as formas
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Enviado Especial a Cannes
Christopher Simon/France PresseOs atores Christopher Walken, Katherine Borowitz, Rufus Sewel e o diretor John Turturro, em CannesSeis anos depois de sua estréia na direção com o autobiográfico ‘‘Mac’’, que obteve o prêmio Caméra D’Or em Cannes-92, o ator, roteirista e diretor americano John Turturro volta a Croisette assinando novo filme, ‘‘Illuminata’’, que lança mão do teatro como uma belíssima metáfora para a condição humana. Este tema clássico - o mundo é um grande palco - é colocado por Turturro no centro da história de amor ambientada em Nova York no início do século. ‘‘Como é fina e quase invisível, a linha que separa a vida real do teatro’’, enfatiza ClimSne, a diva colérica vivida por Susan Sarandon, um dos saborosos personagens do filme.
‘‘Illuminata’’, baseado na peça ‘‘Imperfect Love’’, escrita pelo co-roteirista Brandon Cole, mistura uma romântica história de amor a elementos da comédia teatral clássica. Com este material dramático riquíssimo, a narrativa investiga de que forma uma relação afetiva pode durar quando vida privada e pública se confundem, quando amor e trabalho estão ligados. Nesta farsa shakespeareana com alguns elementos eróticos, na qual os personagens fazem parte de uma trupe de teatro de repertório, conta-se o romance vivido por Rachel, a atriz vedete da companhia, e Tuccio, o dramaturgo. E pergunta-se: a história de amor é compatível com ambições profissionais ? A arte pode influenciar a realidade?
Acima de tudo, ‘‘Illuminata’’ não esconde o entusiasmo, a garra, a energia e o talento - não necessariamente nesta ordem - de Turturro, que soube transmitir tudo isso a uma impressionante galeria de atores: além de Sarandon, brilham Katherine Borowitz, Georgina Cates, Christopher Walken, Beverly D’Angelo, Ben Gazzara e outros.
Sem o cavanhaque com que aparece em ‘‘Illuminata’’, o que lhe confere um ar bem mais jovem mas nem por isso muito descansado, e sem os olhos insanos de seu personagem em ‘‘Barton Fink’’, John Turturro recebeu a Folha em sua ampla e confortável suíte no Hotel Majestic. A seguir, um resumo da entrevista.
‘‘Illuminata’’ parece ter bem definidas algumas influências cinematográficas e teatrais, sem que isto impeça o filme de ter personalidade própria.
John Turturro - Revi a obra-prima de Jean Renoir, ‘‘La RSgle du Jeu’’. E lendo o roteiro do filme, fiquei fascinado pelo fato de que ele se inspirava nos vaudevilles de Feydeau, que conservava a estrutura da farsa para evocar os problemas mais sérios. Foi um dos pontos de partida para minha inspiração. Outra obra que me impressiona sempre é ‘‘Sapatinhos Vermelhos’’, de Michael Powell, por sua evocação do mundo do palco.
Por que o filme, mesmo durante as filmagens, era frequentemente apresentado como farsa erótica?
John Turturro - Juntamente com o co-roteirista Brandon Cole, desde o início criei a história como uma farsa, na qual a ironia tinha um papel fundamental. E isto porque não estávamos interessados em contar a clássica love story entre duas pessoas que se conhecem. Concentramos nossa atenção sobre como manter uma relação afetiva no dia-a-dia, entre toda a sorte de defeitos, mal-entendidos e incompreensões. E uma farsa erótica porque durante a narrativa os personagens mostram seus sentimentos e desejos de uma forma muito divertida. De qualquer maneira, o elemento erótico está colocado em plano secundário.
Quais critérios utilizou para a escolha do elenco?
John Turturro - Procurei atores que tivessem experiência teatral, mas que tivessem acima de tudo qualidade humana. E, para ser sincero, não poderia ter encontrado nada melhor.
Escrever, dirigir, interpretar. O processo é muito cansativo ?
John Turturro - Pode se tornar insuportável se não se cria um bom relacionamento com todos seus colaboradores. E quando se está horas e horas em estreito contato com muita gente num set, e se rompe um certo equilíbrio, torna-se tudo muito fatigante.
Quando era somente ator, pensou um dia tornar-se diretor?
John Turturro - Não, não tinha pensado. Quando estava escrevendo ‘‘Mac’’ não imaginava que fosse dirigi-lo também. Procurei um diretor, mas afinal não encontrei ninguém afinado com o projeto. Naquele momento tive a certeza de que, se quisesse ver minha história na tela grande, eu mesmo teria que dirigi-la.

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