A voz de Roberto Carlos não deixa o senhor Valter dormir em paz. Na cabine de seu caminhão estacionado ao lado do Hotel Cassino Conrad, na cidade de Punta Del Leste, Uruguai, ele tenta pegar no sono e esquecer dos refrões, das palmas e do frio de oito graus que perturbam sua noite. O patrão-cantor que o fez viajar 30 horas com um vaso sanitário particular, um aspirador de pó, produtos de limpeza e mais 7.523 quilos de equipamento para o show latino vive uma noite especial.
O show uruguaio de Roberto Carlos no Conrad, no último sábado, marcou sua carreira duas vezes. Foi a volta de Roberto à América Latina depois de uma pausa de seis anos e a quebra de um tabu particular: cantar em um cassino. A religiosidade do cantor e a promiscuidade dos cassinos sempre foram fatores inconciliáveis.
Las Vegas, a meca do jogo, ouviu não várias vezes. O próprio Conrad, de ambiente familiar e ''limpo'' de contravenções, conseguiu levá-lo depois de algumas recusas. ''Estamos nos preparando para investir forte na América Latina'', diz o empresário do cantor, Dody Sirena. O fato de o próximo disco de Roberto ser todo em espanhol também teria pesado na decisão.
Os latinos recebem Roberto Carlos como um rei excêntrico, não como uma estrela de vontades absurdas. As observações feitas por produtores uruguaios em uma lista de exigências para controle interno do hotel refletem algumas primeiras impressões. ''No que diz respeito aos camarins, digo que ele não é muito extravagante como outros... A única coisa que chama atenção é que pede dez dúzias de rosas vermelhas e dez dúzias de rosas brancas sem espinhos e sem folhas verdes para o seu camarim.''
Muitos uruguaios não conheciam o momento antológico em que Roberto abençoa as rosas fingindo beijá-las e arremessando-as para as fãs.
A falta de exigências esconde outro mistério de Roberto Carlos em suas incursões latinas. O fato de só pedir amenidades aos hotéis em que fica, como seis jogos de lençol, quatro caixas de lenços de papel, ferro, tábua de passar roupa e quatro latas de Pepsi sem gelo, não é exatamente demonstração de desapego material. Na caçamba de 22 metros do caminhão de seu Valter que vem por terra do Rio de Janeiro - enquanto Roberto e quatro acompanhantes se deliciam com a vista de seu avião particular - está um camarim inteiro.
Ele é todo branco, tem ar condicionado, mede cerca de seis metros de profundidade por quatro de largura e é desinfetado por produtos trazidos por sua equipe. Seu vaso sanitário que vem do Rio de Janeiro é cuidadosamente instalado em local apropriado no camarim.
As senhoras latinas amam Roberto Carlos. Irrecuperáveis e simpáticas jogadoras especialistas em caça-níquel - os homens preferem as cartas - tentavam a sorte com bolos de dólares nas 600 máquinas do cassino que conhecem como ''o maior da América Latina''. Argentinas, chilenas, uruguaias e muitas brasileiras que fazem a conexão Sul de 15 em 15 dias, atrás de mais dólares, se sentiam nas alturas com a presença de Roberto Carlos. As estrangeiras queriam saber mais sobre o cantor que ouviram muito nos anos 60 e 70, mas que depois deixaram de acompanhar.
''É verdade que ele coloca um lugar à mesa para a mulher que morreu sempre quando vai comer?'', quis saber uma funcionária do hotel. ''Eu fiquei sabendo que ele tem uma mulher imaginária. Uma mulher que tem de imaginar que é a Maria Rita e que ela está sentada na platéia. Se não for assim, ele não faz o show'', especulava outra uruguaia. A senhora Teresa Ramos, de Montevidéu, fazia a defesa. ''Sou viúva há dez anos e sei o que se passa. Ele precisa é de grandes amigos neste momento.''
A América Latina vai assim conhecendo o Roberto Carlos pós-Maria Rita mais pela mitologia que o cerca do que por suas novas canções. O risco, a longo prazo, seria de o cantor sofrer uma espécie de síndrome de Michael Jackson: fenômeno que ocorre a artistas que passam a ser mais conhecidos por bizarrices que criam sobre eles do que por suas próprias obras. ''Ele não gosta de vermelho, é sério?'', perguntou um funcionário do hotel. O que faz Roberto Carlos não se sentir à vontade é o marrom. E, no Conrad, tudo é marrom. O piso do palco foi coberto por uma lona branca. Mas cadeiras, paredes, teto e chão eram todos marrom. O mito só caiu para quem acreditou que o rei passaria mal.

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