Turismo também é programa de índio
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terça-feira, 23 de agosto de 2005
Cristiana Vieira<br> Agência Estado 
Xingu - ''Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as suas vergonhas'', dizia um trecho da carta de Pero Vaz de Caminha sobre o primeiro encontro dos colonizadores portugueses com os índios. Eles já foram donos de tudo. Mas, hoje, cerca de 560 áreas indígenas ocupam apenas 9,89% da área total do Brasil.
O Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso uma das maiores reservas indígenas da América Latina, que abriga hoje cerca de 4 mil índios de 14 etnias , foi criado em 1961 para garantir melhores condições de vida para a população local. Embora esteja numa área de 28 mil quilômetros quadrados que corresponde ao Estado de Alagoas , o parque não é aberto à visitação. Estudiosos das causas indígenas só têm acesso por meio de uma autorização emitida pela Fundação Nacional do Índio (Funai), que pode levar meses para ser expedida.
Conviver com os índios parece um sonho distante. Mas o turismo caminha a passos largos em direção ao Alto Xingu, em Mato Grosso, onde foi criada uma área para receber turistas interessados em conhecer um pouco da rotina de uma tribo. Trata-se de um projeto turístico que, desde 1996, recebe hóspedes naquela região. ''Mas o fluxo sempre foi mínimo e acabei desistindo'', explica o proprietário das terras, João Vicentini. Para que desta vez dê certo, ele contratou um consultor, que chegou à conclusão de que o plano só seria possível se esses hóspedes tivessem contato com alguma tribo.
O Xingu Refúgio Amazônico, no município de Feliz Natal, a dez horas do parque, fica nas proximidades da área onde os índios da tribo waurá montaram a aldeia Puiwa Poho para receber os hóspedes. Lá, eles fazem demonstrações de como é a vida numa aldeia. Mostram sua rotina, contam lendas e histórias, apresentam danças e preparam um saboroso peixe assado com beiju, imperdível. ''Se até 2007 não tivermos retorno, vamos queimar tudo e voltar definitivamente para o parque'', avisa Takapé, o chefe da aldeia.
Esqueça aqueles índios do livro didático. Embora eles mantenham suas tradições e crenças, aos poucos agregaram características levadas pelos brancos. Usam chinelos e relógios de pulso, têm modernas máquinas digitais e contam que não existe aldeia sem um aparelho de TV. O que não é novidade, principalmente para estudiosos que tiveram oportunidade de realmente conviver com eles.
Mas os índios têm muito medo da vida urbana. ''Índios de outras etnias, que perderam suas terras e vivem fora do parque, vão para a cidade e aprendem coisas ruins'', diz o presidente da Associação Puwixa Wene, Yawaritsawa, de 24 anos, um dos envolvidos no projeto da pousada. ''As pessoas não respeitam e eles viram indigentes, aprendem a beber...''
O empresário Luis Klein conheceu o refúgio no mês passado. Ele nem sabia para onde estava indo, pois foi sua mulher que organizou toda a viagem. ''Eu me surpreendi com a estrutura na aldeia, mas ainda falta muita coisa'', disse Klein, que doou R$ 10 mil para a compra de um rádio difusor e a construção de um poço na aldeia.
As boas lembranças da viagem como essa ficam por conta das emocionantes demonstrações de carinho dos índios. ''Nunca vou esquecer a experiência que tive na aldeia'', disse a nutricionista Joelma Dvoranovski. ''Quero voltar com a minha mãe.''
Viagem feita a convite da FreeWay Brasil e do governo do Estado de Mato Grosso.


