Buenos Aires - O tango, gênero musical típico da Argentina, é famoso pelas letras melancólicas. Para um dos mais famosos poetas do gênero, Enrique Santos Discépolo, ‘‘o tango é um pensamento triste que pode ser dançado’’. Mas o choro, na verdade, restringe-se às letras das canções. Na vida real, o tango é uma fonte de alegrias para empresários portenhos, já que se tornou nos últimos anos um lucrativo negócio que movimenta US$ 135 milhões por ano só na cidade de Buenos Aires. De forma indireta, gera US$ 400 milhões, o equivalente a 10% do total do comércio da capital argentina.
  Os números são ilustrativos. Em 2006, 1,3 milhão de pessoas viram shows de tango em Buenos Aires. Outro 1,9 milhão de pessoas foram dançar tango nas ‘‘milongas’’ – como são chamados os lugares para dançar tango. Além disso, em 2006 foram dadas 4 milhões de horas de aulas da dança, enquanto 600 mil CDs de tango foram vendidos em Buenos Aires.
  Em meados dos anos 90, o tango, que tem em Carlos Gardel seu maior ícone, estava desacreditado. Somente seis casas dedicadas ao gênero estavam abertas. Os grupos musicais eram os mesmos dos anos 60 e 70, que sobreviviam graças às turnês no exterior. O gênero era criticado por não ter gerado novas figuras musicais desde a morte do compositor Astor Piazzolla, em 1992.
  Sem renovação, o negócio do tango estava em declínio. As lojas especializadas eram escassas e estavam à beira da falência. Na mesma época, os turistas estrangeiros eram raridade em Buenos Aires, cidade caríssima entre 1991 e 2002 por causa da conversibilidade econômica, que determinava a paridade um a um entre o peso e o dólar.
  Porém, a crise econômica de 2001-2002, que arrasou o país, proporcionou uma renovação cultural, além de uma revolução nos negócios na área. A cidade, que tornou-se drasticamente barata para os estrangeiros com a desvalorização da moeda e o achatamento salarial, transformou-se em um ímã para os turistas, que se tornaram os principais responsáveis pelo boom tangueiro. Uma pesquisa do Observatório de Indústrias Culturais da Cidade de Buenos Aires indica que, do total de turistas estrangeiros que visitam a cidade, 23% identificam o tango como a principal imagem de Buenos Aires – em segundo lugar, com 10%, está o futebol.
  A hotelaria aproveitou a onda e abriu hotéis temáticos, com quartos decorados com motivos relacionados à dança. Em vários casos, os hotéis também contam com academias de dança integradas. Os nomes são bem evidentes: Hostelmotango, Argentango Hostel, Argentina Tango Hotel e Milongahostel, entre vários outros.
  Segundo Jorge Araujo, gerente-geral do hotel temático Dândi, nos últimos três anos o aumento do turismo deu o grande impulso à onda do tango. Muitos jovens argentinos começaram a se interessar pela dança. ‘‘Mas, ainda é preciso que os argentinos se interessem mais.’’ Esse é, para especialistas, o calcanhar-de-aquiles do negócio.
  Os empresários portenhos e o governo de Buenos Aires querem aumentar a fatia argentina no mercado mundial do tango – que, segundo estimativas, movimenta anualmente até US$ 3 bilhões. Para conseguir uma participação maior nesse bolo, autoridades e empresários uniram-se para realizar uma série de festivais de tango todos os anos. Em março, um festival reuniu 160 mil pessoas em Buenos Aires (o equivalente a 5% da população da capital), entre argentinos e turistas.
  Mas, apesar do bom momento, nem tudo é festa. Segundo declarou em tom de alerta à imprensa Daniel Buonamico, secretário de Turismo da cidade turística de La Falda, na províncias de Córdoba – e coordenador do Festival Nacional do Tango que ali é realizado – o sucesso atual do negócio é puramente conjuntural. ‘‘Não tem base. Se os estrangeiros deixarem de vir, acaba’’, afirmou.

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