Turbulentas mudanças de ares
Patrulhado pelo meio teatral, olhado de banda pela turma da TV. O diretor de teatro Ulysses Cruz tinha tudo para se sentir um verdadeiro peixe fora dágua na sua estréia na televisão. Engano. Estou vivendo um dos melhores momentos da minha vida. Seu primeiro trabalho no novo veículo pode ser conferido no dia 24, às 22 horas, quando a Rede Globo exibirá o especial de Natal de Angélica, Asas para Que te Quero que co-dirigiu com Rogério Gomes.
Inicialmente ele havia sido escalado para fazer a próxima novela das 8 da emissora, Suave Curare, de Aguinaldo Silva. Estava em pleno teste de elenco quando foi convocado para fazer o especial. Aceitei porque achei que trabalhar com Angélica poderia ser bacana e realmente foi, disse. Angélica é uma boa atriz, inteligente e um ser humano generoso.
Cruz ambientou a história em um circo e vestiu os participantes de clown. Entre um número musical e outro de Angélica, o programa fará um paralelo entre o nascimento de Jesus e o nascimento de um palhaço. Os atores Stênio Garcia e Antonio Fagundes, além do grupo de pagode Molejo e da cantora Daniela Mercury, participam do programa.
O diretor acredita que o especial vai emocionar. Vamos mexer com corações empedernidos, brincou. Ele admitiu que os colegas de teatro acham um absurdo ele ter ido para a TV. Dizem que estou cuspindo no prato em que comi; ainda bem que nunca dei muita bola para o meio teatral. Ao mesmo tempo, sentiu um grande preconceito dentro da televisão.
Na sua opinião, isso aconteceu porque as pessoas não conheciam seu trabalho. Já dirigi desfile de moda, casamento e batizado, contou ele que, no teatro, já encenou peças de Shakespeare, David Mamet, Pirandello, Ibsen, Tennessee Williams e Nélson Rodrigues. Além disso, já fui carnavalesco.
De TV, ele realmente nada entendia. Cruz contou que há tempos queria experimentar o veículo. Até que foi convidado a cursar a oficina de direção da Globo. Agora está contratado pela emissora até o fim de 1999. Não estou preocupado com o preconceito , afirmou. O especial é um cala-boca em muita gente da Globo que achava um absurdo investir em gente como eu.
Seu processo de adaptação foi conturbado. Dei trombadas, confessou. Sua maior dificuldade foi a de aceitar que não era mais o deus do processo de criação e produção do espetáculo. Segundo ele, quem o ajudou a pôr os pés no chão e aceitar ser parte de uma engrenagem foi o diretor de núcleo Ricardo Waddington. Ainda tenho ciúmes e desconforto quando metem a mão em uma idéia que eu dei, afirmou.
Ele também achou estranho encontrar tantas dificuldades operacionais para fazer o programa, já que estava trabalhando em uma emissora com tantos recursos. Passou a anotar tudo o que considerou errado. Está terminando de escrever um relatório que será enviado ao diretor de Criação Carlos Manga, com a fita editada do especial.
Meu objetivo não é dedurar ninguém, mas explicar que é preciso planejamento, disse. Muita coisa nós não conseguimos fazer porque o pessoal de computação gráfica estava abarrotado de trabalho, pois todos os especiais são feitos na mesma época, continuou. Se todo ano os especiais são feitos, por que deixar para fazer todos ao mesmo tempo?
Desta vez, Cruz teve tempo para ensaiar, segundo ele, exaustivamente, as cenas do especial. Será que ele está preparado para a padaria que é uma novela? O diretor, de 45 anos, está certo que sim. É possível fazer novelas melhores do que as que estão no ar atualmente, afirmou. Eu sempre consegui empolgar os atores e espero, um dia, fazer isso dentro de uma novela e criar um produto empolgante, eletrizante.
Quanto tempo essa lua-de-mel com a TV vai durar, Cruz não sabe. O que sabe é que, agora, está tão empolgado que nem pensa mais em voltar para o teatro. Só abrirá uma exceção para honrar um compromisso assumido há dois anos com o ator Eduardo Moscovis: montar a peça Killer Disney, um texto inglês que é, na definição do diretor, quase uma ficção científica sobre a violência das ações humanas. O ator pretende começar os ensaios assim que terminar de gravar a novela das 6 da emissora, Pecado Capital, da qual é um dos protagonistas.
Fora isso, Cruz pretende dedicar-se exclusivamente a aprender fazer televisão. Para isso, terá de deixar de lado a própria sofisticação. O teatro é elitista, disse. Eu faço peças complicadas, mas cheguei à TV pleno de vontade de comunicar-me. Na sua opinião, Gerald Thomas, muita gente faz, mas realizar um espetáculo tocante e simples é mais difícil.
Despir-se de sofisticação significa também ter humildade para aceitar os toques de quem tem experiência no novo ramo. Cruz também está disposto a isso, como um aluno aplicado. Estou animado na Globo porque me dão corda, conclui. Nunca fui tão bem tratado.Arquiva FolhaUlysses Cruz que dirigiu o especial de Angélica (abaixo): Aceitei porque achei que trabalhar com ela poderia ser bacana e realmente foiSônia Apolinário
Agência Estado





