Ranulfo Pedreiro
Era batata. Ao sair do colégio, diariamente, o rapazote Carlos Althier de Sousa Lemos Escobar tinha destino certo. Ia para a casa de um quase vizinho, compositor famoso que pensava em escola de samba com ideais humanitários: Candeia. Com o sambista, o jovem Guinga tocava violão e jogava conversa fora. Certa vez, espantou-se ao saber que Candeia gostava de Dave Brubeck. Foi quando percebeu que defender as origens e a continuidade de um estilo musical não significa rejeitar outros.
A constatação lhe abriu as portas para influências diversas. Por isso, em seu ‘‘Suíte Leopoldina’’ - disco que saiu recentemente pela Velas -, Guinga traz choro, valsa e baião sem negar o jazz. Nessa mistura cabe a experiência de um compositor que transita com intimidade pelas rodas de samba e se mostrou pela primeira vez em um festival da canção dos anos 60.
As influências se reúnem nas composições de forma intuitiva, ligadas ao cotidiano de quem abraçou a música sem abandonar a odontologia. Apesar de reconhecido, Guinga ainda não consegue sobreviver como compositor. E se pudesse, não deixaria de ser dentista, pois gosta das duas profissões.
‘‘Suíte Leopoldina’’ é seu quarto disco-solo. O primeiro, ‘‘Simples e Absurdo’’, saiu em 1991 e ‘‘Delírio Carioca’’ veio em 1993. ‘‘Cheio de Dedos’’ foi lançado em 1996 e abocanhou três prêmios Sharp. Antes, porém, Guinga foi gravado por MPB-4 em 1973. Entre seus intérpretes constam Chico Buarque, Leny Andrade, Paulo César Pinheiro - com quem desenvolve parcerias -, Ed Motta, Djavan, Elis Regina, Cauby Peixoto, Sérgio Mendes e Turíbio Santos, entre outros. Como violonista acompanhou muita gente, inclusive Cartola na primeira gravação de ‘‘As Rosas Não Falam’’.
Os amigos marcam presença no CD. Há participações de Toots Thielemans, Chico Buarque, Nei Lopes, Lenine, Ed Motta e Ivan Lins. Os arranjos ficaram por conta de Gilson Peranzzetta, Lula Galvão, Rodrigo Lessa e Leandro Braga. Entre os instrumentistas constam Jorge Helder no baixo, Andréa Ernest Dias na flauta, Carlos Malta também em várias flautas, Marcos Suzano na percussão, Zé Nogueira no sax e Jacques Morelenbaum no violoncelo.
O disco abre com ‘‘Dos Anjos’’, feita em homenagem ao filho do Nailor Proveta, da Banda Mantiqueira. Embasado por um belo arranjo de cordas, Toots Thielemans emplaca um solo de harmônica e o resultado é bem intimista. O samba aparece na segunda faixa, ‘‘Parsifal’’, que traz formato de crônica, cantado por Nei Lopes e Chico Buarque.
Celso Viáfora surge como parceiro no choro ‘‘Di Menor’’, com violões de Guinga e Lula Galvão embasando os arranjos dos sopros de Paulo Sérgio Santos. Outro bom choro, ‘‘Sargento Escobar’’, foi feito para o pai do compositor.
Entre as canções está ‘‘Chá de Panela’’, homenagem a Hermeto Paschoal. A letra, de Aldir Blanc, se destaca: ‘‘Assoprou numa chaleira, bateu numa bacia/ Jesus, Ave Maria, era uma sinfonia’’, gravada por Alceu Valença. Os trens do subúrbio da Leopoldina são reproduzidos no ritmo de ‘‘Noturno Leopoldina’’, com violões de Guinga e Lula Galvão.
O compositor aparece cantando ao lado de Ivan Lins em ‘‘Guia de Cego’’, inspirado em moda de viola. Uma das faixas mais interessantes é ‘‘Perfume de Radamés’’, em que Guinga lembra o estilo de composição de Radamés Gnattali, o maestro que revolucionou o choro.
Há ainda um outro baião, ‘‘Cortando um Dobrado’’, referências ao jazz em ‘‘Par Constante’’, com voz de Ed Motta, e ‘‘Mingus Samba’’, que relembra o contrabaixista Charles Mingus com letra de Aldir Blanc, num suingue carnavalesco interpretado por Lenine.
Com a maioria das faixas instrumentais, ‘‘Suíte Leopoldina’’ aponta soluções para algumas patinadas que a MPB - no sentido restrito - deu nos últimos tempos, impondo uma criatividade personalizada. O compositor se mostra à vontade com a gravadora, e o bom CD pode ser também um dos reflexos da ausência de imposição de prazos para o lançamento de discos - uma exigência comum em muitas gravadoras e que obriga, às vezes, uma produção quase industrial. Um problema que Guinga sempre evitou.
- Suíte Leopoldina - Disco do compositor e violonista Guinga. Lançado pela Velas, o CD tem distribuição nacional pela Universal, com preço médio de R$ 21,00.O compositor carioca Guinga vai do choro ao baião em ‘‘Suíte Leopoldina’’ e se firma como um dos bons nomes da música brasileira
Bruno Veiga/DivulgaçãoGuinga reúne em seu disco nomes como Chico Buarque, Nei Lopes, Lenine, Ed Motta, Ivan Lins, Alceu Valença e Toots Thielemans

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