TURBILHÃO DE EMOÇÕES
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 27 de julho de 2001
Francelino França De Londrina 
Vinte anos. Mas meu peito tem batido nesses vinte anos tantas vezes como o de um outro homem em quarenta. Esse trecho do drama Macário, último suspiro literário do poeta Álvares de Azevedo, responsável pelos contornos definitivos do mal do século no romantismo brasileiro, revela um jovem dotado de inteligência incomum e surpreendente. A morte foi presença constante na obra de Azevedo. A dor no peito o levaria cedo. O texto apresenta um jovem chamado Macário, estudante de Direito, poeta, e vive uma dualidade: ora irônico e macabro, ora meigo e sentimental, ou seja, o próprio Álvarez de Azevedo.
Esse universo de pura emotividade e impulsividade capturou o ator Caio Blat, que realizou uma adaptação sobre o texto escrito numa noite de insônia e febre. Macário, que estreou em 1999, foi dirigido por Otávio Muller e tem apresentações hoje e amanhã em Londrina. Autocrítico, até Azevedo considerava esse drama uma inspiração confusa. O jovem ator preencheu lacunas, onde a dramaturgia se apresentava mais cambaleante, imprimindo ritmo, com trocas de cenas e inclusão de trechos de poemas. Em entrevista a Folha2, por telefone, Caio Blat, afirmou: Fazer a adaptação foi o desafio mais gostoso. Algumas pessoas me falavam que era impossível fazer Macário, tentei mostrar que não era.
Tanto Macário, quanto Caio Blat empatam em idade, têm 20 anos. Encontro semelhanças entre nós na força da idade. Na obra de Álvares de Azevedo sente-se a vibração da pós-adolescência, na urgência das palavras, compara. Essa impulsividade latente também cerceia o trabalho de Caio Blat, que abraça seus projetos da mesma forma ultra-romântica. A versão do ator paulista instaurou uma aura de sonho, num local indefinido, em que sonho e realidade se misturam. Outro paralelo traçado por Caio Blat se refere à tuberculose, doença que medrava os boêmios do século 19 que abusavam dos prazeres da carne. Nos dias de hoje, a Aids, o mal do século que também dizima os poetas, remete aos tempos de Azevedo. É só lembrar da última gravação de Cazuza, com o microfone, já doente na cama e a urgência de dizer os últimos versos, prossegue.
Mas esse universo sombrio e poético pode não contentar as fãs histéricas que buscam apenas um contato com o Anjo Caiu do Céu. Para ele, esses são os casos mais bonitos, das meninas que não conhecem a poesia de Álvares de Azevedo e saem com resquício dessa poesia ou uma frase na cabeça.
Macário sua incursão no teatro. Ele assina a direção de Êxtase, texto de Walcyr Carrasco. Sua carreira na cena teatral paulistana teve início em 1992, com o diretor Roberto Lage e a peça Tietê Menino. Por sua atuação ele recebeu indicação como ator revelação pela Apetesp. Pelo espetáculo O Homem das Galochas, direção de Wladmir Capella, em 1998, Caio Blat foi indicado como melhor ator pela trinca Apetesp, APCA e Mambembe. Na TV, suas participações mais marcantes foi em Chiquinha Gonzaga. No momento, protagoniza Um Anjo que Caiu do Céu, que faz o querubim Rafael.
Ao digitar Caio Blat na web obtém-se 307 sites em que aparecem o nome dele. Soma-se a isso, a novela e páginas de revistas e jornais em que sua imagem explorada. Não dá para evitar, aproveito o contato com o público para poder passar com a poesia minha vida voltada para o evangelho e espiritulidade, revela.
Além de atuar nesse drama, Caio Blat está prestes a lançar o filme Cama de Gato, de Alexandre Stockler, feito com tecnologia digital. Esse filme foi feito com coragem e vontade. É muito parecido com tudo o que fiz na vida. O filme é quase uma volta de Glauber, com uma câmera na mão e o que importa é o conteúdo. Em Cama de Gato, Blat é Cristiano, amigo inseparável e colega de colégio de Francisco (Rodrigo Bolzan) e Gabriel (Cainan Baladez).
Tudo começa na véspera do primeiro dia de aula das faculdades em que acabaram de entrar. Eles acabam estuprando uma menina, sem saber direito o que estavam fazendo. Achavam que a garota estava gostando, e ela acaba morrendo. A irresponsabilidade do garoto tem raízes no caso dos jovens brasilienses que incendiaram o índio pataxó. Nós nos acomodamos, nos tornamos negligentes, diz, referindo-se à sua geração. Os jovens retratados no filme, segundo o ator, querem diversão a qualquer custo de forma irresponsável e se apóiam na figura do pai. Caio Blat espera ansioso o lançamento de outro filme, Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, rodado em 1999 e sem previsão de lançamento.
Macário, direção de Otávio Muller, dramaturgia de Caio Blat sobre texto de Álvares de Azevedo. Com Caio Blat, Emílio Orciolo Neto, Selma Egrei. Hoje (às 21 horas) e amanhã (20 horas), no Teatro Marista (Rua Cristiano Machado, 421), em Londrina. Ingressos à venda na bilheteria do teatro a R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia/aposentados)


