"Tudo sobre Minhã Mãe" mostra um Almodóvar maduro; o filme estréia amanhã em todo País
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quarta-feira, 06 de outubro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 07 (AE) - Ao grande filme de Stanley Kubrick em cartaz, "De Olhos bem Fechados", vem somar-se, a partir de amanhã (08), o novo Pedro Almodóvar. "Tudo sobre Minha Mãe" é extraordinário. O outro grande filme do ano. Foi-se o Almodóvar kitsch, que, de brincos e meia-arrastão, bancava o cabareteiro em "Labirinto de Paixões". Em seu lugar está agora um cineasta maduro, no auge de sua arte. Não por acaso, recebeu o prêmio de direção no Festival de Cannes, em maio. Merecia mais, a Palma de Ouro. Mas agradeceu polidamente o prêmio que recebeu: "Sou diretor, como não ficar sensibilizado por ser o melhor?"
Lamentou apenas que suas atrizes, Marisa Paredes e Cecilia Roth, tenham sido esquecidas pelo júri de Cannes. Acha-as maravilhosas. Elas são. Almodóvar já colocou sua mãe (que morreu há menos de um mês) para cantar. Ela cantava um bolero em "Ata-me". Mas, ao contrário do que o título sugere, "Tudo sobre Minha Mãe" não é sobre a mãe dele. Almodóvar não virou Mauro Rasi. É muito mais denso e contundente. O título e a própria essência do filme vêm de Joseph L. Mankiewicz, o diretor americano que foi um dos maiores criadores de personagens femininas da história do cinema.
Almodóvar também é suscetível ao universo feminino. As mulheres, na sua obra, são melhores e mais fortes do que os homens. "Tudo sobre Minha Mãe", o título, remete a "All about Eve" (Tudo sobre Eva), que no Brasil se chamou "A Malvada". Blanche - Começa como a história de um rapaz que vive indagando da mãe sobre a figura do pai. O rapaz tem fixação numa atriz de teatro que interpreta Blanche Dubois em "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee Williams. Numa noite de chuva, a noite de seu aniversário, o rapaz, tentando conseguir o autógrafo da diva
morre atropelado. Não é tirar a graça revelar esses detalhes. Eles acontecem logo nos primeiros cinco, dez minutos.
Morto o rapaz, sua mãe parte numa viagem em busca do pai. Surpresa: ele é um travesti. De Madri a Barcelona, a mãe liga-se à estrela de teatro. Há outro travesti na história (interpretado por uma mulher). Almodóvar continua trabalhando com o universo de outsiders que sempre o atraiu, mas agora não brinca mais de cafonice. A extrema maturidade de seu estilo transparece numa narrativa densa, que remete à origem do melodrama (que também o atrai). Mas ele não deixa de exercitar seu estilo inconfundível de humor na cena em que o travesti faz o show no teatro.
Há referências à política. A personagem de Cecilia Roth é argentina e boa parte da narrativa concentra-se no período em que o general Videla foi preso na Argentina. Há mesmo uma citação às Mães da Praça de Mayo. Mas onde Almodóvar é mesmo político nem é nesses detalhes que estão longe de ser irrelevantes. É no olhar que ele lança sobre a confusão amorosa no fim do milênio. "Tudo sobre Minha Mãe" mostra um travesti que é pai, uma freira que está grávida e é aidética. Nada disso para escandalizar, mas para discutir, séria e honestamente, um novo conceito de família surgido dos escombros da moral tradicional.
Depois de "Carne Trêmula", no ano passado, e agora de "Tudo sobre Minha Mãe", não há mais espaço para dúvida: o diretor irreverente de "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" virou um dos maiores autores do cinema na atualidade.


