Tudo sobre a ópera brasileira
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de outubro de 1998
Bebel Nepomuceno Agência Estado 
O Brasil, terra do samba, do chorinho, da bossa nova e, agora, ao que parece, da axé-music, sustentou, entre a segunda metade do século passado e o início deste, uma intensa e rica produção operística, inimaginável nos dias de hoje, cujo epicentro se localizava no Rio de Janeiro.
Esta faceta, pouco conhecida até mesmo por estudiosos da música, está revelada no estudo Pesquisa em Ópera Brasileira, um levantamento que já consome nove anos de trabalho da pianista e professora de História da Música Vanda Lima Freire. Ela encontrou, naquele período, o registro de 60 títulos operísticos em português e pelo menos seis mil manuscritos originários apenas dos dois maiores teatros de ópera então existentes na cidade: o São João e o São Pedro de Alcântara - este uma réplica do Teatro São Carlos, de Lisboa - que, demolidos, deram lugar ao Teatro João Caetano, na Praça Tiradentes.
A Pesquisa em Ópera Brasileira virou livro, que já está no prelo, editado pela Funarte, e tem previsão de lançamento no próximo mês. O trabalho da pesquisadora sofreu desdobramento e vai também virar um CD intitulado Ópera Brasileira em Língua Portuguesa, incluindo composições inéditas de autores como Arthur Napoleão, J. Otaviano Gonçalves, Manoel Belarmino da Costa e Barroso Neto, além de outras obras poucas vezes executadas, como A Noite do Castelo, de Carlos Gomes, Tiradentes, de Joaquim Manoel de Macedo (sobrinho do autor de A Moreninha) e Pelo Amor, de Leopoldo Miguez. O disco, que é produzido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) através do selo Tons e Sons, deverá estar no mercado até o fim do ano.
Ao longo desses nove anos, a pesquisa de Vanda Freire consumiu mais de R$ 130 mil (financiada pela Capes, pelo CNPq, pela UFRJ e pela Fundação Universitária José Bonifácio), teve vários desdobramentos e, quando concluída, no final do ano que vem, terá dotado a biblioteca da Escola de Música da UFRJ de um registro patrimonial e catalogação de todo o seu acervo. O projeto original encaminhado ao CNPq em 1989, segundo Vanda, se propunha a localizar todo o acervo de ópera em língua portuguesa (elas eram majoritariamente escritas em italiano) mantido nos arquivos da Escola de Música da UFRJ, de onde é professora.
O volume e riqueza do material encontrado levaram a pesquisadora a aprofundar seu trabalho, buscando não só outros arquivos, como também jornais da época e outras fontes de pesquisa.
A primeira etapa do trabalho, agora transformada no livro Pesquisa em Ópera Brasileira, foi concluída em 94 e deu origem à outra, do registro patrimonial e catalogação do acervo da Escola de Música, outrora Instituto Nacional de Música e, antes ainda, Imperial Conservatório de Música. Muitos dos autores cujos títulos eu encontrei eram professores do conservatório, mas a produção não se limitava a eles. O número de récitas na cidade naquela época era surpreendente e havia vários teatros operísticos. Para se ter uma idéia, num único ano Norma, de Bellini, teve 41 apresentações, enumera Vanda.
Em seu levantamento, Vanda descobriu ainda que no final do século 19, um gênero originário do Brasil, denominado mágica ganhou espaço entre os compositores. Arthur Azevedo, por exemplo, chegou a afirmar que o público não quer mais saber de ópera, só de mágica. O gênero, segundo Vanda, situava-se entre a ópera e a opereta e, por ser mais popular, era bastante combatido pela Imprensa e permanece praticamente ignorado pela literatura sobre a História da Música.
O nacionalismo musical, caracterizado como fruto da Semana de Arte Moderna, na verdade já vinha desde o século passado, explica a pesquisadora, garantindo que a música executada nos teatros iria influenciar decisivamente mais tarde a música feita nos salões.


