Tudo passa, ele fica
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quarta-feira, 01 de abril de 1998
Antônio Mariano Júnior 
ReproduçãoCarlos Moreno: imagem limpinha dos primeiros comerciais conquistou a simpatia das donas de casaNão há dona de casa que não se comova com aquele jeitinho que mescla meiguice com timidez. E foram elas, as donas de casa, as responsáveis diretas pela inclusão do nome dele no Guiness Book. Sim, porque a empatia estabelecida foi tão grande que o ator Carlos Moreno tinha que parar no livro que registra recordes. Também, ora essa, são vinte anos consecutivos enfiando a cara na televisão - e também em fotos de publicidade - vendendo os produtos da Bombril.
Sim, trata-se de uma casamento perfeito que se depender de ambas as partes, empresa e ator, logo logo vai comemorar Bodas de Prata. É que Carlos Moreno renovou o contrato de exclusividade com a Bombril até 99 podendo, obviamente, ser prorrogável por mais um período. Ora, se depender do entusiasmo do ator o simpático garoto-propaganda terá uma vida longa. Ele adora o personagem, nascido da imaginação do paparicado Washington Olivetto.
Mas a relação entre personagem e ator nem sempre foi, digamos assim, harmônica. Se por um lado Carlos Moreno ganhou popularidade, por outro seu trabalho, para a maioria dos espectadores, parece se resumir apenas a vender os produtos da Bombril. Há uns dez anos isso chegou a incomodar profundamente. Aos poucos com o amadurecimento pessoal e profissional, chegou à conclusão que o seu simpático garoto-propaganda é, sobretudo, um grande trabalho que necessita antes de mais nada de talento. E de mais a mais, o contrato de exclusividade garante um confortável padrão de vida - o valor que embolsa não é revelado. Dentro dos padrões de publicidade sou um dos atores mais bem pagos. Quer dizer, esse trabalho garante minha sobrevivência e, com isso, posso fazer outras coisas no teatro- revela.
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Versatilidade num único papel: os tipos recentes de Carlos Moreno incluem um cientista, um punk e um hippie
Pois bem. Essa história toda começou em 78 quando Carlos Moreno estava em cartaz, em São Paulo, com um espetáculo que chamou a atenção da filha do produtor Oscar Caporale, que estava à caça de um ator para viver o garoto-propaganda. Ao assistí-lo, encontrou. Veio o teste. O ator teria que dar vida a um personagem cujo perfil era o de um engenheiro químico meticuloso, introvertido que de uma hora para outra se via na obrigação de vender um produto que havia criado.
Nascia, ali, um das maiores sacadas de marketing da publicidade brasileira. Uma união perfeita entre texto-direção-interpretação que ganhou o Brasil inteiro. Nem a empresa muito menos a agência de publicidade, na época a DPZ (da qual Olivetto era sócio), poderiam imaginar que aquele rapaz simpático, até um pouco afeminado, seria bem-aceito.
Quebrava-se também o tabu de que homem não servia para vender produtos de limpeza. E Carlos Moreno imprimiu ao personagem uma fragilidade até então nunca vista em outros garotos-propaganda. E mais que isso, deu-lhe simpatia. Aos 43 anos, com uma serenidade impressionante, o ator sabe que o poder da televisão é uma coisa de louco.
Quer dizer, o telespectador gosta mesmo é de se alimentar de imagem. E a sua é um poderoso alimento capaz, ao mesmo tempo, de vender produtos e destilar talento. Mas para a grande maioria das pessoas que se sentam à frente da TV Carlos Moreno não existe; o que existe é o garoto-propaganda, o cara da Bombril. É o tal negócio: a Fernanda Montenegro pode fazer um trabalho maravilhoso assim como o Ratinho fazer o que faz que o peso na TV é o mesmo- raciocina.
Ou seja, para a grande cultura de massa prestígio é apenas nome de chocolate. Mas Carlos Moreno tem prestígio. Afinal, é preciso ser muito competente para ficar tantos anos na televisão e não cansar o pobre do telespectador. Um bom exemplo de que quando há talento e inteligência atuando lado a lado esse papo de desgaste de imagem é coisa pra boi dormir. Eu me preocupo apenas em ter a sabedoria de sair de cena com dignidade. Eu sei que mais cedo ou mais tarde, isso terá que acontecer- diz. A pergunta: será que as donas de casa vão deixar?


