Tudo para ver o navio indo água abaixo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 22 de abril de 1998
Simone Mattos e Telma Elorza 
Quem não assistiu ao filme pelo menos deve ter ouvido falar no fenômeno Titanic, que inundou 300 salas de cinema e já registrou 12 milhões e 400 mil pagantes nas bilheterias do País. Responsável por filas que continuam dobrando esquinas três meses depois da estréia nacional, a megaprodução já foi vista por 400 mil curitibanos, um terço da população de Curitiba. Em Londrina, pelo menos metade da população - 250 mil pessoas - enfrentaram filas quilométricas para assistir à história de amor passada no navio mais famoso do mundo.
Só em Londrina foram cerca de 500 sessões em quatro dos seis cinemas da cidade. A administradora de cinco salas de projeções na cidade, Ruth Moraes, estima que o filme fique em cartaz por mais um mês, no Catuaí Shopping Center, atraindo ainda os que preferiram esperar acabar a loucura das filas para assisti-lo com calma. Acho que mais umas 100 mil pessoas devem vê-lo. Inclusive cidades vizinhas estão organizando caravanas para assisti-lo. Só ontem (na última terça-feira) recebi quatro cidades - conta.
Nos quatro anos que trabalha administrando cinemas, Ruth diz que nunca viu coisa igual ao fenômeno Titanic. A gente não vencia a procura. Organizei sessões em horários alternativos, abria a bilheteria mais cedo, fiz de tudo para atender a todos. Até uma única cópia que o distribuidor nos mandou fiz exibir em dois cinemas. Mas não tem jeito, parece que o brasileiro gosta de filas e mede a qualidade do filme por elas - diz.
Apesar de todo o sucesso e da fantástica arrecadação, Ruth diz que o Titanic trouxe também muita dor de cabeça. O filme me estressou - confessa. Ela foi destratada, xingada e agredida moralmente por várias pessoas. Elas simplemente não entendiam que eu não podia liberar público maior do que as salas comportam. Afinal, são três horas e meia de filme. Não dá pra assistir sentado no chão, de forma totalmente desconfortável - afirma.
Além disto, as salas onde o filme estava sendo exibido foram praticamente depredadas. Cansei de ter que chamar encanadores para resolver problemas nos banheiros para, no dia seguinte, ter que fazer tudo de novo. As poltronas do Vila Rica (um dos cinemas mais tradicionais da cidade) estão em petição de miséria. Vamos ter que reformá-las todas - lamenta.
Segundo Ruth, ela passou por todas as experiências boas e más com um filme só. Teve dia que tinha que deixar tudo e me trancar na minha sala para chorar. Acho que depois que o Titanic sair de cartaz, vou ter que dar férias para todo mundo - afirma.
Na opinião dos exibidores, os responsáveis pelo sucesso do filme foram os adolescentes que assistiram diversas vezes ao filme ou as pessoas que normalmente não frequentam os cinemas e que resolveram sair de casa para conferir Titanic. Fui por curiosidade - resume a esteticista curitibana Maria de Lurdes Tissot. Ela estava cansada de ouvir seus parentes, amigos e clientes comentarem sobre a produção, que somente ela não conhecia.
Há cerca de sete anos que Lurdes não pisava numa sala de cinema, desde que assistiu a outro campeão de bilheteria, Ghost, no início da década. Não costumo ir ao cinema porque não tenho paciência de ficar tanto tempo sentada - justificou.
Apesar disto ela embarcou no Titanic, cheia de curiosidade e disposição. Ao deparar com uma gigantesca fila, uma hora antes da sessão, ela pensou em desistir, mas sua filha, a estudante Pérola, 20 anos, convenceu a mãe a entrar. Elas acabaram sentando no chão, que estava imundo, e o resultado foram dores no corpo e muita raiva. Foi frustrante - confessou. Enquanto todas as pessoas choravam de emoção pelo filme, eu chorava de ódio.
Lurdes acha que não conseguiu entrar no filme, devido ao desconforto, e pretende assistir novamente, quando as filas diminuirem. Eu irei junto - garante a filha, que já assistiu ao filme duas vezes. Pérola confessa que, além de ter gostado muito da produção, não se cansa de contemplar seu ídolo, o ator Leonardo DiCaprio. Já era fã dele antes do Titanic e tenho várias fotos em meu quarto.
A estudante comentou que não assistiu a nenhum outro filme que esteja atualmente em cartaz em Curitiba e confirmou que as únicas vezes que foi ao cinema neste ano foram para ver Titanic. Mesmo assim, irei mais uma vez - garantiu.


