Curitiba – O pagode veio e se foi, deixando como herança um injusto olhar enviesado quando o assunto é samba. Pois bem, depois da saturação e de grupos desfeitos chega ao mercado o paulista Dose Certa. São cinco integrantes que à primeira vista até lembram os conjuntos surgidos nos últimos anos, mas há uma diferença fundamental deste para aqueles: talento e seriedade. Embora exista há cinco anos, só agora o Dose Certa lança seu primeiro CD, ‘‘Não Leve a Mal’’, pela Paradoxx Music.
‘‘Nosso grupo é atípico; ele foi montado de modo a não cometer os erros dos outros’’, diz Alemão do Cavaco (cavaquinho e vocal), criador do conjunto. Apesar de jovem, o músico está há 12 anos na carreira. Participou de gravações de discos – de Alcione, Leci Brandão, Bezerra da Silva, Rildo Hora, entre outros – e tocou muito na noite. Como compositor é pentacampeão de sambas-enredos de São Paulo; neste ano foi o responsável pela vitória da Gaviões da Fiel, com ‘‘Xeque-Mate’’. Uma grande alegria, já que esta é sua escola do coração: o músico é cavaquinho oficial da agremiação de 1993.
Depois de passar por várias bandas Alemão achou que era hora de buscar um grupo voltado realmente ao samba, mas que não fosse ‘‘grupo de um cantor’’. Muita gente boa acabou caindo na armadilha, ele conta. Quem não era do ramo acabou entrando, na base da aventura. Era essa cena indefinida que ele não queria. Com um perfil definido, o artista criou o Dose Certa, tendo em sua formação pessoas com histórias a contar.
Bruno, o vocalista, é um cantor que vem da noite paulistana. Não repete a notória deficiência vocal que grassou por aí. O pandeiro (e vocal) fica a cargo de Vitor, artista que em tempos passados foi com a bateria da Mangueira à Inglaterra, como participação especial no show de os ‘‘Doces Bárbaros’’ – Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil. Também tocou ao lado do maestro Jacques Morelembaum numa das edições do Free Jazz Festival, em São Paulo.
O baixista Peu Cavalcante, por exemplo, já tocou com Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Royce do Cavaco. Como compositor de sambas-enredos, e conquistou para sua escola, a Camisa Verde e Branco, o vice-campeonato paulista com ‘‘4 Vamos Pensar, Isso Vai Dar o que Falar’’. De sua autoria é ‘‘Minha F㒒, do grupo Pixote. Kyko (tan tan e vocal), contribui com algumas composições neste CD. Tem músicas gravadas por diversos grupos e intérpretes como Royce do Cavaco e Eliana de Lima.
Alemão do Cavaco tem uma visão crítica do trabalho. Para ele a hora e a vez do samba começa a partir de agora, porque a fase anterior foi a da corrida ao pagode, que acabou colocando no mesmo barco quem era e não era do ramo. ‘‘Os empresários ajudaram a derrubar o pagode, pegando qualquer um’’. Embora não goste de rótulos – ‘‘eu faço música’’, resume –, Alemão afirma que a proposta do grupo é fazer samba ‘‘com qualidade e estrutura’’. ‘‘Prezamos muito a musicalidade e a harmonia’’, observa. Por fim, deixa o telefone do empresário Lima para contatos: (11) 3259-0822.

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