Arnaldo Jabor


Tudo indica que Deus é norte-americano
De longe, a vida política no Brasil é uma chanchada sinistra

Não, Mr. Smith... o Brasil não anda para frente como a linha reta de vocês, anglo-saxões. O Brasil gira em volta de si mesmo, como as cobras grandes, ele engole o próprio rabo, ele vai e volta, vacila, duvida, ganha tempo. Nos USA, tempo é dinheiro; no Brasil, a lentidão é que fatura. Sim, o atraso, os calotes, as impunidades. Somos tecnicamente uma ‘‘democracia’’, Mr. Smith, mas os brasileiros não entenderam o que é esta palavra. Nossa ‘‘democracia’’ para principiantes rola em cima de velhíssimas rodas autoritárias e corruptas, o que provoca uma paralisia de bico, uma sinuca de anulação de poderes. Pra vocês, Mr. Smith, a democracia é um projeto coletivo, buscando a média das vontades; no Brasil, é vivida como ‘‘liberalismo individualista’’, porta aberta para todos os oportunismos, pois a ‘‘cana’’ é menos dura... Democracia no Brasil é uma espécie de ditadura individual de picaretas. Como? Suas ações aqui em NY caíram hoje? O senhor está preocupado com a reforma da Previdência? No Brasil, ninguém liga. A irresponsabilidade dos políticos brasileiros é assustadora. Não entendem o delicado fio de navalha, a corda bamba onde andamos. Mr. Smith, sinto dizer, mas os políticos no Brasil, em sua maioria, são despachantes de si mesmos, traficantes de influências, garimpeiros de grana. Nos USA, o eleitor vigia seus deputados distritais; no Brasil, o sujeito se candidata por outro Estado, os eleitores nem sabem quem ele é. É... Mr. Smith, morreram dois políticos agora. O Brasil só muda assim, aos trancos, em sustos, por alguma arte do acaso. O acaso é o motor da História no Brasil. Por acaso morreu Tancredo, por acaso morreu Ulisses, por acaso morreram Serjão e o Luís Eduardo. Só o acaso fura a paralisia que se arma contra as mudanças e aí o Brasil tem alguns momentos de verdade, alguns breves instantes, enquanto as águas fluem, mas logo depois se fecham as comportas do ‘‘mesmo’’. Os dois morreram de cansaço nesta luta surda contra a barreira do passado. Eram figuras complementares e raras: um tucano com paixão militante e um conservador progressista, muito mais moderno que as oposições, Mr. Smith. Como? Bem... as oposições no Brasil são um arco-íris. Temos todas as cores, temos os russos, albaneses, chineses, temos os populistas, mais espertos, que mandam nos otários. O PDT é o PFL do PT, mas isso o senhor não entenderia. Na oposição, todos se acham sempre mais ‘‘à esquerda’’ que o outro. Alguém disse que, no Brasil, as esquerdas só se unem na cadeia. É verdade. O ‘‘outro’’ é sempre reacionário, Well... todo mundo se acha a favor do progresso, mas o progresso é sempre oral, abstrato, sem consequência prática. Reformar o País é muito chato; bom é a ‘‘utopia’’, não? Essa palavra dá cadeia em sua terra, não é verdade? Reformar dá muito trabalho administrativo; é mais fácil liderar os funcionários públicos para o boicote ao Governo. É uma invenção brasileira: a ‘‘revolução reacionária’’. Pelo bloqueio do novo se manteria um ‘‘novo velho’’ ou um ‘‘velho novo’’ e, como as oposições se recusam a reconhecer o governo - o FHC é tratado como um Mussolini - o executivo fica numa solidão paranóica e sem oposição técnica, tendendo ao erro, à teimosia ou a inação.
O que o governo mais precisa é de uma oposição. Ou melhor, o governo não precisa de oposição, pois os próprios aliados do governo boicotam os projetos. Na semana passada, 50 aliados voltaram contra a reforma. Os partidos são uma zona, porque não há fidelidade partidária, ou seja, cada homem é uma ilha de loucura e oportunismo, cada um vende seu voto a varejo. O Brasil é uma ‘‘cleptocracia’’ - adorei essa palavra que vocês usam - por isso as reformas não passam, há quatro anos... ai de nós, Mr. Smith. Outro dia, ah ah ah... a reforma da previdência não passou por um voto, porque um deputado do governo errou e votou contra. Um dedo mudou a História. O acaso no Brasil é tudo, o acaso, a morte súbita, o par-ou-ímpar, a porrinha, o cara-ou-coroa, a sorte ou o azar comandam a vida, e ainda querem proibir os cassinos. Nós somos a democracia da barganha infinita. Cada político é um ‘‘camelo’’ de si mesmo e o governo é obrigado a negociar a cada passo, negociar para passar uma emenda, para nomear um ministro, para comprar papel higiênico. O meio vai virando fim, o ato político já é uma roda viciada que gira sem rumo, o tempo se entorta e anda para trás e a política vira uma coisa em si mesma. Vai se complicando mais a rede burocrática, o labirinto dos processos, a impossibilidade do follow up, a treva da corrupção e não se consegue inaugurar um canal de esgoto que não sirva a algum interesse particular. É... Mr. Smith... O presidente é teoricamente ideal. Sociólogo, progressista, especialista em desenvolvimento dependente, homem bom para guiar o País nesta fase de neoliberalismo selvagem. Mas, obcecado pelas reformas, foi criando uma ‘‘teleologia’’ política do adiantamento, parecida com o velho paraíso socialista: ‘‘quando vierem as reformas’’. E aí, nada faz de pontual, de urgente, criando o marasmo administrativo, o descaso social, desprezando tudo que é ‘‘micro’’ por um ‘‘macro’’ que não vem nunca, pois se esquece que a vida é micro... como bem sabem vocês, que conquistam o mundo grão a grão.
É... nosso déficit público está crescendo muito... Mas, graças a Deus, temos uma equipe econômica muito competente, formada em Harvard, MIT, Yale. Mas eles vivem no meio de uma inundação, segurando a moeda como podem, enquanto as reformas não saem e os juros ficam altos, mas isto segura o desenvolvimento econômico, o que gera desemprego e instabilidade. É sempre a cobra comendo o próprio rabo, Mr. Smith... Uma coisa é boa: o presidente se recusa a ser messiânico, como querem os latinos de seus líderes... Mas, como nada anda, até mesmo a ausência de um messianismo populista cria um vazio, uma sensação de desamparo, como se nada estivesse acontecendo. E não está mesmo, com os poderes paralisando um ao outro, com as oposições se esvaindo em besteiras, com a produção parada pelos juros, com a vida parada. O impeachment do Collor ainda foi um projeto, com jovens nas ruas... que lindo... povo unido!... E, agora?... Nenhum desespero e nenhuma esperança também... É... o presidente deve ser reeleito, porque o povo não quer mexer em nada, para não fazer marola no marasmo. Eu só tinha esperança, Mr. Smith, de que a sadia influência anglo-saxônica pudesse revirar as velhas estruturas oligárquicas do Brasil. Vossa loucura produtiva poderia limpar nosso portuguesismo endêmico. Mas, como nos falta uma política industrial e um projeto cultural de país que pudesse filtrar a influência do capital americano, vocês só nos olham como ‘‘freguês emergente’’, só se interessam por nós ou para ganhar em CDBs, a vinte por cento ao ano, ou para comprar nossos bancos e indústrias falidas...no grande carnaval das mergers and acquisitions que virou o capitalismo do fim de milênio. Nossa falta de amor próprio desperta os imperialistas em vocês... Mas, como dizemos no Brasil, ah, ah, ah... Deus é brasileiro, Mr. Smith... tudo vai dar certo... ah, ah! Como? Deus mandou o senhor vender suas ações brasileiras? Não... tenha piedade, não faça isso, que a gente quebra... Mr. Smith...

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