Tudo em Tim era demais
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segunda-feira, 16 de março de 1998
Ranulfo Pedreiro 
ReproduçãoTim Maia morreu aos 55 anos: vida intensa demaisNo meio do caminho o rapaz não aguentou. Abriu a marmita preparada com carinho pela mãe - que ele transportava para um freguês - e começou a se fartar com deliciosos pastéis. Mas o cliente percebeu a demora e resolveu ir atrás do almoço. Ambos se encontraram na rua e resolveram a questão no braço.
Posteriormente Tim Maia, o comilão, e Erasmo Carlos, o faminto, fariam as pazes. A amizade dos dois perdurou entre lambretas barulhentas, rock e muita confusão. Já na época, Tim Maia mostrava um comportamento controvertido, meio doidão. Fazia o que lhe dava na telha.
No período que morou nos Estados Unidos, por exemplo, entre 1959 e 1964, se envolveu em encrencas diversas: namorou a filha de um pastor protestante, roubou residências, foi pego com drogas e, finalmente, deportado. Mas o mais importante ocorreu no âmbito musical. Tim Maia mergulhou, em sua estada norte-americana, na soul music, que estava estourando por lá.
Esse conhecimento seria fundamental para firmar o estilo do cantor, e orientou incisivamente seus primeiros discos, nos quais ele mesclou ainda rock, jazz e ritmos nordestinos. Nesta época o vozeirão já estava amadurecido, e às vezes aparecia áspero, como em Coroné Antônio Bento, ou aveludado, como em Azul da Cor do Mar, do primeiro disco, lançado em 1970.
O segundo disco, lançado em 1971, seguiu o estilo do primeiro e trouxe Festa de Santos Reis e Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar), esta última, resgatada na década de 90, se tornou sucesso nas pistas do País e foi cantada por uma geração mais nova do que a própria música, fato do qual o cantor se orgulhava.
Pois foi justamente em Não Quero Dinheiro, quando o cantor iniciava um show acústico, no domingo, dia 9, em Niterói, para o canal de TV a cabo Multishow, que a hipertensão que o incomodava há algum tempo se revelou com intensidade. Era a primeira música da apresentação e Tim Maia fez alguns sinais de reclamação e abandonou o palco.
O público ainda cantou por um tempo, já acostumado com as esquisitices do intérprete. Nos bastidores, Maia tinha uma série crise hipertensiva. Já no hospital, teve parada respiratória. Posteriormente, foi induzido a um coma, com excesso de glicose no sangue - Maia era diabético -, e uma infecção pulmonar que já ameaçava se tornar generalizada. Acabaria morrendo no último domingo depois de uma semana de agonia.
A surpresa no rosto da platéia quando o incidente foi anunciado era perceptível. Apesar das maluquices, Tim Maia mantinha um humor brincalhão que despertava a simpatia do público. Mesmo assim, o síndico cantado por Jorge Benjor gostava de uma encrenca. E não foram poucas aquelas em que se envolveu.
Entre outras, Tim Maia processou a turma da Casseta & Planeta por discriminação racial, por causa do título do disco Preto com um Buraco no Meio. E reclamou muito das imitações de Bussunda, que o satirizavam, num clipe da música Mãe é Mãe. Em contrapartida, foi processado pelos músicos da antiga banda Vitória Régia, por atrasos nos pagamentos.
Seu jeito freak proporcionava frases hilárias: Não fumo, não cheiro, não bebo, só minto um pouco, tudo é tudo e nada é nada ou quem não dança segura a criança. Numa de suas entrevistas, ao ser perguntado sobre projetos futuros, respondeu: Vou comprar um traseiro novo, porque o meu está rachado. Durante os shows se tornaram parte do repertório frases soltas que reclamavam do agudo ou da falta de retorno. Além dos abraços especiais para o amigo Fábio Júnior e às vezes para uma desconhecida Dona Severina.
O medo de voar lhe impelia ao consumo de uísque - Com uma garrafa eu até piloto - e a situações constrangedoras - certa vez foi expulso de um avião por cantar uma aeromoça.
Nos shows suas performances eram inesperadas. Muitas vezes, cantava pouco, limitando-se a reger o naipe de metais e os coros com os quais dividiam o palco. Outras vezes exibia o pique de um verdadeiro soulman, soltando o vozeirão e mantendo o ritmo até extrapolar horários estabelecidos para o fim do espetáculo. E, muitas vezes, não aparecia nem dava justificativas.
Foi o que ocorreu durante uma das gravações do programa Chico & Caetano, veiculado pela Globo. O cantor foi no ensaio mas ausentou-se do show. Caetano Veloso tentou contornar a situação, dizendo que o Tim era assim mesmo, tinha essa coisa e a emissora exibiu trechos de bastidores.
Era no palco que Tim Maia se sentia mais à vontade, onde a voz mostrava o potencial - carregado de técnica -, longe das limitações e da burocracia dos estúdios. Sua interpretação era capaz de encobrir músicas duvidosas, melodias fracas ou letras superficiais.
A originalidade que cercava Tim Maia se manteve até o último instante. Sua carreira atravessou movimentos sem se vincular estreitamente com nenhum deles: pertenceu à Jovem Guarda, mas com certa distância. Interpretou Bossa Nova e fez misturas rítmicas capazes de fazer inveja aos tropicalistas. Enfim, foi cantor do primeiro time.


