Tudo em nome do cinema
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terça-feira, 16 de outubro de 2001
Luiz Carlos Merten<br> Agência Estado 
É uma linda história de amor. Leon Cakoff, de 53 anos, ama Renata de Almeida, de 35, ela o ama também e os dois amam o cinema. O casal, que já tem um filho, aguarda o segundo (o quarto de Cakoff) para janeiro. Jonas ainda não sabe se vai ganhar um irmãozinho ou irmãzinha. Os exames ainda não permitiram determinar o sexo do bebê. A família toda está na maior expectativa. Talvez haja aí algum simbolismo. Pois Cakoff, que há 25 anos organiza a Mostra Internacional de Cinema São Paulo, gosta de dizer que o bom do evento não é se aproximar dele à procura dos grandes filmes já consagrados, aqueles que chegam referendados por prêmios e elogios nos festivais de Cannes, Berlim e Veneza. A Mostra exige um público disposto a apostar no desconhecido e a descobrir esses pequenos filmes, às vezes de cinematografias exóticas, que a mulher e ele garimpam em todo o mundo.
Ao longo desses 25 anos, no processo de consolidação da Mostra - que agora se chama Mostra BR de Cinema, pelo patrocínio da BR Distribuidora -, Cakoff admite que chegou a sacrificar os filhos, deixando-os muitas vezes, para perseguir filmes em festivais distantes. Sacrificou a vocação de crítico, que fez dele um agitador de cinema. Nos anos 70, o País ainda vivia sob uma ditadura. A cultura era amordaçada em nome da segurança nacional. Filmes eram proibidos. Cakoff, como crítico, viajava pelo mundo e via aqueles filmes para os quais os olhos dos brasileiros estavam vendados. Queria trazê-los a São Paulo. E então Pietro Maria Bardi lhe pediu que inventasse alguma coisa para comemorar os 30 anos de fundação do Museu de Arte de São Paulo. Foi ali, no Masp, em 1977, que surgiu a Mostra Internacional de Cinema São Paulo.
Começou tímida. Cakoff credita à sua habilidade de diplomata a sobrevivência da Mostra naqueles anos heróicos. ''Para trazer os filmes, recorria à mala diplomática dos países com os quais o Brasil tinha relações.'' Brigou com a censura para liberar obras-primas interditadas, com a burocracia do governo (e não só os militares) para garantir a circulação de bens culturais. Ganhou reconhecimento no País e no exterior. Antes de embarcar para Teerã, o embaixador brasileiro no Irã, Cesário Melantônio Neto, fez questão de conhecê-lo. Disse que o que conhecia do país no qual ia trabalhar se devia, em grande parte, aos filmes iranianos que Cakoff trouxe para a Mostra.
Hoje, seu maior orgulho é constatar que a Mostra se consolidou sem sacrificar seu perfil artístico e humanista. ''Nossa vocação política sempre foi defender uma cultura de resistência'', define. Ao contrário do que afirma Hollywood, cinema não é entretenimento. Hollywood sabe disso, pois vive embutindo política (e ideologia) nas suas fantasias escapistas. Cakoff defende o cinema autoral, de grife. Ganhou um sócio, outro louco por cinema: Adhemar de Oliveira, do Espaço Unibanco. A distribuidora dos dois, a Mais Filmes, põe filmes raros no mercado. E o Unibanco Arteplex, que ambos agora querem exportar para outras praças do Brasil, é considerado por quem entende, pela qualidade técnica e da programação, um dos melhores conjuntos de salas do mundo.
Renata foi fundamental no processo. ''Ela é a alma da Mostra'', diz o marido amoroso e cúmplice. Começaram a trabalhar juntos na 13ª edição. Renata possui uma vitalidade que impulsiona Cakoff. Ela adoçou seu coração. Adoçou os corações dos numerosos amigos que a Mostra fez ao redor do mundo. Foram muitas emoções ao longo destes 25 anos. Uma das maiores foi quando Eizo Sugawa foi homenageado na 20ª Mostra, em 1996. Reservado, por natureza e formação cultural, o grande cineasta japonês abraçou Cakoff na despedida e lhe disse que nunca, na vida, havia sido homenageado por sua atividade artística. Sugawa morreu dois anos depois. Estes momentos, que não são raros na Mostra, convencem o diplomata Cakoff de que vale a pena o esforço.


