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quinta-feira, 24 de julho de 1997
Antônio Mariano Júnior Londrina 
Mario CesarMiguel Proença: O que existe é uma falta de conhecimento do que acontece na área de incentivoFoi a primeira vez que ele veio participar do Festival de Música de Londrina. E a impressão não poderia ter sido a melhor. Eu fiquei encantado pela maneira como uma atividade cultural deste porte foi conduzida- confirma o pianista Miguel Proença que, na 17ª edição do Festival, encerrado no último sábado, veio substituir outra grande fera dos teclados: o pianista Caio Pagano. A participação dele, a exemplo de outros professores, não ficou relegada apenas às salas de aula. Proença foi um dos destaques do Concerto Brahms/Dvorak que levou um bom público ao Cine-Teatro Ouro Verde.
Mas não é só por isso que o pianista não economiza elogios e adjetivos ao Festival de Música de Londrina.O que mais me cativou foram os talentos que se revelaram- diz. Ele, particularmente, teve a oportunidade de garimpar a cantora lírica Maria Lúcia Alvino, que saiu do Piauí, um Estado que não tem tradição nesta área.
O entusiasmo foi tanto que Proença resolveu encaminhar a cantora ao projeto Musicista - um dos programas criado pelo Capes (Centro de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior), instituição vinculada ao Ministério da Educação - que traz professores estrangeiros de renome para dar aulas em universidades brasileiras. Este projeto é desenvolvido desde 96 na UniRio, no Rio de Janeiro, e desde o começo do ano na UFRG, em Porto Alegre. Ele é consultor do Capes.
Resumindo: o apoio do pianista vai fazer que com a cantora inicialmente tenha aula com a professora Maria Venuti, em Porto Alegre, e posteriormente com a holandesa Mia Besslink, no Rio de Janeiro. Minha colaboração com o Festival de Londrina é muito pequena. Eu, como outros professores, fomos participar pela qualidade e também por amor à arte - diz modestamente.
Não pensem, entretanto, que o empurrãozinho do pianista vai ficar apenas no encaminhamento da cantora lírica piauiense. Outra coisa que o encantou durante sua passagem por Londrina foi a Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina. Além do nível e qualidade, a Osuel é um órgão formador de público- analisa.
E é através da Osuel que ele vê a possibilidade de Londrina ter seu festival reconhecido ainda mais em nível nacional. Ou seja, a Osuel pode servir como uma espécie de cartão de visita para que o evento ganhe uma maior amplitude nacional. O primeiro passo neste sentido o pianista deverá dar nos próximos dias quando ele pretende manter uma audiência com o reitor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Antonio Celso.
O assunto: a possibilidade de se firmar um intercâmbio entre esta instituição carioca e a Universidade Estadual de Londrina para que a Osuel possa fazer algumas apresentações no Rio de Janeiro. Isso pode ocasionar uma projeção maior na mídia e talvez motivar as instituições culturais e a iniciativa privada de Londrina e do Brasil- analisa.
Daí, entraria em cena, de acordo com o pianista, um grupo muito importante: os captadores de recursos. Até a comunidade de Londrina se dá conta de que mora numa cidade que tem um perfil cultural já definido e com tradição - reforça o pianista.
É público e notório que a iniciativa privada, de uma maneira geral, ainda é muito reservada quanto a investimentos na área cultural. É que para alguns empresários é muito mais fácil investir em atividades esportivas do que em manifestações culturais mais fortes e consistentes.
Neste ponto, Miguel Proença tem uma análise bastante pessoal. É preciso cativar os contadores das grandes empresas para que eles convençam os empresários- diz em tom de ironia. O que existe é uma falta de conhecimento do que acontece na área de incentivo. E o Ministério da Cultura está empenhado cada vez mais em aumentar os incentivos, mas existe muito pouco apoio- complementa.
Público talentosoA música erudita no Brasil, segundo o pianista, vai bem. Poderia ser melhor. Aliás, poderia ter uma divulgação maior por parte dos meios de comunicação, principalmente as rádios que atualmente se preocupam mais em difundir o efêmero do que o eterno. Mesmo assim, o grande público brasileiro se mostrar cada vez mais interessado em conhecer, pelo menos, a música erudita. O público está cada vez mais à procura de qualidade porque não suporta mais a mediocridade. Se você tiver chance de mostrar um trabalho na parte de música erudita as pessoas saem contempladas- diz.
Essa constatação o pianista pôde ter durante um projeto, criado por ele em 94, com o patrocínio da UERJ, que consiste na realização de concertos de alto nível de música erudita uma vez por semana, no Teatro Noel Rosa, campus da instituição. O objetivo, além de levar a boa música, é um só: formar público. E está sendo um sucesso imenso. O público brasileiro talvez seja o público mais talentoso para a música erudita porque tem sensibilidade para aplaudir quando a manifestação artística é verdadeira- afirma Proença.
Miguel Proença é, antes de mais nada, um incentivador cultural. Há seu dedo numa outra atividade cultural que vem dando mais que certo no Rio Grande do Sul: o Projeto Sesi-RGS. Trata-se de uma Orquestra de Câmara, formada em 96, e composta por 14 jovens, que viaja pelos quatro cantos do Rio Grande do Sul levando boa música às pessoas.
E falando em boa música, o pianista se prepara para relançar, em novembro, na versão CD, dois discos com obras de Lorenzo Fernandes. O patrocínio é da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro. Os discos foram lançados originalmente há 14 anos, em vinil. A remasterização tem por finalidade comemorar o centenário de nascimento de Lorenzo. Como se percebe, Proença não pára. Coisas de agitador cultural.


