Jackeline Seglin
De Curitiba
No cenário do Bills Ballhauss, um bar da Chicago dos anos 20-30, acontece o inusitado encontro da religiosa Lilian Holliday com o gângster Bill Crack. Em meio à guerra do Exército da Salvação com os poderosos do crime organizado surge o ponto de partida de ‘‘Happy End’’, espetáculo que estréia nacionalmente no 9º Festival de Teatro de Curitiba. A co-produção dos grupos Folias e Tapa, dirigida por Marco Antonio Rodrigues, será apresentada hoje e amanhã, no Teatro da Reitoria.
Em entrevista à Folha2, o diretor da montagem comentou que a história é bastante contemporânea. ‘‘Se passa na época pré-crack e utiliza-se de fatos reais: um Exército da Salvação que atuava em zonas de prostituição e guetos de bêbados e bandidos.’’ Os opostos (Hollyday e Cracker) acabam se reunindo a partir de uma pretensa história de amor, mas na verdade têm outros objetivos – o que fica claro, por exemplo, com os gângsteres que se tornam ‘‘pastores do Senhor’’. ‘‘É uma disputa do poder público. Na verdade, é tudo o que acontece ainda hoje e aponta para uma época pré-nazista, infelizmente’’, observa Rodrigues. ‘‘É o crime que organiza a sociedade e cria um paradigma cultural onde a vida não vale nada.’’
Num clima de filme noir, ‘‘Happy End’’ tem ingredientes do humor ácido e irônico de Brecht. Nesta comédia musical, os poemas de Brecht musicados por Kurt Weil são interpretados por 12 atores que cantam e tocam instrumentos no palco. ‘‘O nosso trabalho tenta recuperar essa coisa do comediante popular, que toca, canta, faz circo’’, antecipa Rodrigues.
O texto – sugerido por Eduardo Tolentino, diretor do Tapa – foi escrito por Elisabeth Hauptmann, uma colaboradora importante do Brecht. ‘‘Foi ela quem fez toda a pesquisa da Ópera dos Três Vinténs’’, conta Reinaldo Maia, que assinou a dramaturgia. ‘‘Aproveitando o sucesso da peça, Brecht rapidamente resolveu escrever um texto que, de alguma maneira, continuasse a investigação do submundo do crime e do capitalismo, presentes na ópera. A sua preocupação sempre foi como traduzir em cena o que significava o capitalismo, esse poder tão abstrato do dinheiro. Então encomendou a Elisabeth o texto de Happy End.’’
Maia explica que o texto – que nunca constou da obra completa do Brecht – é difícil e tem poucas traduções. ‘‘Conseguimos uma espanhola e outra brasileira, mas optamos por fazer uma tradução nossa.’’ A tentativa, com este trabalho, foi aproximar o linguajar original do público de hoje. ‘‘Como Brecht, tentamos entender o que é o Happy End na época que estamos vivendo.’’
Este espetáculo não é a primeira parceria do Folias com o Tapa. Os grupos paulistanos começaram a trabalhar juntos em 1995, com ‘‘Verás que Tudo é Mentira’’ – espetáculo que também estreou no Festival de Teatro de Curitiba. Atualmente, eles estão em cartaz com o musical ‘‘Surabaia Johnny’’ no Teatro Aliança Francesa, em São Paulo. Marco Antonio Rodrigues escolheu ‘‘Happy End’’ para inaugurar o espaço próprio do grupo (Galpão do Folias – Sala Conrado Wessel) na estréia paulistana no dia 7 de abril.
FICHA TÉCNICA
Espetáculo: Happy End
Direção: Marco Antonio Rodrigues
Co-produção: Folias e Tapa
Texto: Elizabeth Hauptmann
Tradução: Lilian Blanc e Reinaldo Maia
Dramaturgia: Reinaldo Maia
Elenco: Bráulio Ferraz, Bruno Perillo, Dagoberto Feliz, Edgard Bustamante, Renata Zhaneta e outros
Figurinos: Lola Tolentino
Cenário: Ulisses Cohn
Iluminação: Gil Teixeira
Músicas: Kurt Weil
Letras: Bertold Brecht
Direção musical: Dagoberto Feliz