Tucumán - Ao todo, Tucumán tem 11 microclimas. Tal diversidade influi no potencial ''agro'' da região (atividades de agricultura e pecuária, como descrevem os argentinos). Seus principais produtos são a cultura do limão e cana-de-açúcar.
A capital da Província, San Miguel de Tucumán, com pouco menos de 500 mil habitantes, é o berço da independência argentina. Uma de suas poucas atrações turísticas é a Casa da Independência, onde foi assinado o documento que selou a separação entre o país e a Espanha. O general Martin, um dos signatários, decidiu levar a idéia de uma América do Sul livre para todo o continente e participou pessoalmente da expulsão espanhola de outros locais como Chile, Bolívia e Peru. Hoje, o antecessor de Che Guevara na luta pelos ideais americanos é conhecido como San Martin.
A partir da capital, indo em direção ao leste pela hipersinuosa Rota 307, encontramos a cidade de Tafí del Valle. Nesse caso, o caminho é o próprio atrativo. Além das curvas que se entranham pelo coração da montanha, a estrada corta um relevo deslumbrante não só em direção ao leste, mas também para o alto, no sentido do céu.
O percurso é parte dos Valles Calchaquíes, região que prima pelas lendas indígenas de Pacha Mama (Mãe Terra), a natureza. Quem preferir pode chegar ainda mais perto dos condores, pássaros comuns ali: do Pico de Loma Bola, próximo da estátua do Cristo de San Javier, os amantes de esportes radicais voam de asa-delta e paraglider. A vista lá de cima é a verde selva Tucumán-Oranense, onde os vizinhos peruanos e bolivianos plantam a folha de coca.
Ali tudo é muito calmo, especialmente na Villa Nougués, resort onde os tucumanos mais bem de vida se hospedam para passar os dias provando deliciosas empanadas e alfajores, ou jogando golfe em um dos campos mais altos do mundo, a 1.300 metros. Quem gosta de escaladas e ecoturismo encontra um destino extremamente exótico.
Pouco acima, a paisagem torna-se branca. Não pela vegetação, nem pelos vidros embaçados das janelas do automóvel, mas porque o caminho atravessa as nuvens e desemboca em um planalto semi-árido frio e seco, onde está a cidade de Tafí.
Tafí é uma espécie de Campos do Jordão da região, situada a 2 mil metros de altitude. Enquanto a capital, San Miguel, atinge 40 C no verão, a temperatura em Tafí del Valle chega no máximo a 35 C. Os argentinos visitam a cidade para se hospedar em alguma fazenda típica as ''fincas'' ou estâncias, que produzem leite e queijos artesanalmente , cavalgar pelas montanhas e assistir a shows típicos das coplas, duplas de mulheres que invocam o espírito guerreiro indígena e o misturam a canções improvisadas.
No El Parador Tafinisto, restaurante mais popular de Tafí, é possível também assistir a danças típicas como a chacarera e a zamba, ao sabor de humita, uma tradicional sopa de milho, queijo e cebola. Para acompanhar, pode-se optar pelo vinho local ou pelo típico fernet bebida que lembra o Campari com refrigerante.
Depois de cruzar uma estrada onde a altitude ultrapassa os 3 mil metros, descemos pelo outro lado das montanhas, ainda nos Vales Calchaquíes. O caminho é tão diferente quanto magnífico. Ao cruzar o Vale Amaicha e as montanhas Seio Grande e Seio Pequeno em direção à Província de Salta, a paisagem chama a atenção pelo grande número de cactos, conhecidos como ''cardones''. É ali que fica a maior atração turística da Província de Tucumán: as Ruínas de Quilmes.
Os Quilmes viveram na região na segunda metade do século 17. Eram uma civilização pré-andina, composta por 5 mil índios guerreiros que desafiavam o Exército Realista. Após sangrentos combates, os espanhóis exterminaram mais da metade deles. Os que restaram viraram prisioneiros e foram condenados a caminhar 1.600 quilômetros acorrentados até a Província de Buenos Aires, onde ficavam os campos de concentração para índios. Chegaram apenas 240. O local é hoje conhecido como a cidade de Quilmes.
Mas a civilização continua presente no dia-a-dia argentino. Os Quilmes dão nome à cerveja mais popular do país, produzida na cidade onde, em 1637, viveram seus últimos remanescentes.
Quilmes é um dos maiores sítios arqueológicos da Argentina. Além das fortificações de pedra da época, é possível subir a um mirante e avistar todo o vale, uma paisagem magnífica. A multidão de indíos deu lugar hoje a milhares de cactos, firmes, secos, centenários, espécie de homenagem da natureza ao povo que resistiu anos contra exércitos muito mais equipados. O povo da região parece ter conservado esse espírito, e a inspiração dos índios guerreiros com certeza influenciou dois homens, Martin e Belgrano, a liderar um continente inteiro rumo à liberdade. (F.M.)

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