Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Quem acompanha a programação noturna do canal Telecine 5 está se sentindo de braços dados com o arco-íris. Desde o dia 1º, a sessão das 22 horas vem sendo preenchida com uma nolstágica e quase sempre saborosa coletânea de clássicos americanos das décadas de 30, 40 e 50, comédias, westerns, melodramas e musicais realizados através do exuberante processo do technicolor (leia texto nesta página), conquista técnica que Hollywood soube aproveitar até a exaustão do processo, afinal absorvido por avanços da tecnologia de geração mais recente.
E a partir de amanhã até sexta-feira, o pacote de janeiro dedicado ao reinado da cor oferece cinco significativos momentos da carreira cinematográfica de Carmen Miranda nos Estados Unidos. São cinco longas, realizados entre 1940 e 1943, os anos dourados da ‘‘Brazilian Bombshell’’, como passou a ser conhecida pela mídia especializada em rotular celebridades da noite para o dia.
Carmen Miranda foi o mais nítido exemplo de estrela criada em virtude de necessidades bélicas. A guerra na Europa tinha fechado importantes mercados para o cinema americano. Era preciso, então, abrir outros. Algum chefão na cúpula da 20th Century-Fox imaginou que alguém da América Latina pudesse ser um remédio eficaz. E para isso o mais adequado seria inventar uma estrela que correspondesse à idéia que o americano fazia da mulher tropical, mas que ao mesmo tempo não fosse uma séria rival para as estrelas do país - um complemento, seria o mais conveniente. Até certo ponto, o modelo para a criação do mito Carmen Miranda foi Lupe Velez, já então em decadência. E neste contexto, Carmen tinha um trunfo paradoxal, uma estranha vantagem: não era particularmente bonita. Boca enorme, olhos apertados, baixa estatura dissimulada por sapatões com saltos imensos - tudo pesou para que os executivos da Fox jogassem com inteligência. Em todos os filmes em que participou ela era ‘‘a outra’’, mas uma outra que ocupava lugar tão importante como a estrela, que tinha tantos números musicais como ela, e que, se ao final não ficava com o galã, pelo menos tinha significado algo importante na vida dele.
Os filmes de Carmen Miranda não procuravam atrair o espectador apenas com a presença da atriz, mas eram pretextos para um desfile de ambientes exóticos, uma espécie de coquetel technicolorido. Os chapéus-fruteiras reinavam absolutos, aparatosos, simbólicos. Nos filmes de Carmen Miranda, a América Latina entrava com a estrela, as rivais Betty Grable ou Alice Faye ficavam com o melhor papel e também com os galãs Don Ameche ou Cesar Romero e a Fox embolsava os dólares.
O fenômeno Carmen Miranda durou o que podia durar, exatamente os anos da Segunda Guerra mundial. Quando os mercados europeus se abriram novamente após a vitória aliada, Carmen foi descartada como qualquer objeto inútil. Alguns filmes mais, agora em preto e branco - os da época áurea, em ‘‘glorioso technicolor’’, já eram passado - e em papeis sem qualquer importância, vieram apagar tristemente sua carreira. Em 1955, aos 46 anos, a morte física é o anunciado complemento de sua morte artística, ocorrida dez anos antes.