Trocas encantadas
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sábado, 11 de abril de 1998
Jackeline Seglin 
Josoé de CarvalhoA primeira troca: um colete grego por uma canga de BaliOs convidados chegam aos poucos. Muitos já se conhecem, outros querem saber do que se trata... O espaço, apesar de pequeno, é acolhedor. Para compor com os panos e lenços pendurados pelas paredes e tapetes espalhados no chão, as mercadorias são expostas em cantos da sala, como se formassem pequenas tendas. O próximo passo é circular à procura de alguma coisa que interesse. Livros, roupas, CDs, objetos de decoração, quadros, peças de porcelana, óculos, revistas, porta-retratos, sapatos, coleção de latas de cerveja, de bonés e camisetas e até objetos como um telefone e um ferro elétrico.
Assim é o Brechó Encantado, realizado pela Associação Rosa Ígnea de Londrina. A idéia é explorar o sentido da troca, para que as pessoas aprendam a compartilhar objetos que possam não ser mais úteis para elas. O objetivo dos que ali se reúnem é buscar o outro lado da moeda: o não-comercial.
A professora de dança Márcia Gatinho logo gosta do telefone, mas prefere esperar um pouco antes de decidir. Para fazer sua troca, ela leva de casa algumas peças de roupa e sapatos que não usa mais. A idéia é achar uma outra pessoa que queira negociar. A primeira troca acontece rapidamente: um colete grego por uma canga de Bali.
A fundadora da Rosa Ígnea, Sônia Cruz, observa que o Brechó Encantado visa difundir o hábito de compartilhar. A base, segundo ela, são as tribos indígenas americanas, que em um determinado dia recebiam pessoas de outros lugares para fazer trocas. Não podia ser nada velho ou quebrado, para não demonstrar mesquinharia, diz. Sônia reafirma que o objetivo maior é aprender a trocar, a dividir as coisas, sem medir seu valor comercial.
Josoé de CarvalhoAldiney Fernando da Silva arruma suas mercadorias: para ele, o sentido do brechó deve ser somente a troca
A coordenadora pedagógica da associação, Neide Zucoli Oliveira, conta que tudo no brechó em princípio deve ser trocado. Mas no caso de a pessoa não conseguir fazer negócio, são abertas exceções e as peças podem ser vendidas a um preço de, no máximo, R$ 10,00. Além da troca, queremos estabelecer uma confraternização entre membros da associação e pessoas convidadas, avisa. E a tendência é melhorar e crescer, trazendo cada vez mais pessoas de fora.
O vendedor Aldiney Fernando da Silva, que também está de olho no telefone, não consegue trocá-lo. Ele mostra os casacos, paletós e até uma calça black-tie para a dona do telefone, mas não a convence a fazer a troca. Na verdade, eu quero trocar por roupas mesmo, só que ainda não vi nada que me interesse, lamenta.
Aldiney não vai para casa de mãos vazias: dá uma de suas peças - uma jaqueta - e leva três livros. Para ele, uma boa troca. Mas na opinião de Aldiney, nada ali deve ser vendido. Se é para trocar, não tem porque vender, defende, alegando que com isso o sentido do brechó pode se dissolver.
Para quem está no papel de observador, um detalhe chama a atenção. A falta de entrosamento. O mercado funciona bem entre os conhecidos, mas quem é de fora ainda não está integrado. Talvez por ser a primeira vez, a troca entre pessoas conhecidas seja mais fácil. Os motivos podem ser muitos: timidez, falta de atenção. Mas já que a confraternização é um dos objetivos do brechó, nada melhor que integrar quem está de fora neste mesmo mundo encantado.
Serviço: Mais informações sobre o Brechó Encantado na Rosa Ígnea, pelo fone (043) 327-1100.


