A coprodução entre emissoras abertas e produtoras independentes parece ter o poder de reciclar o que está estagnado, misturando referências e aquecendo o mercado audiovisual brasileiro. Atualmente, Globo e Record são as que mais incentivam esse tipo de "sociedade" criativa. Mas por motivos diferentes.
Enquanto a Record procurou baixar os custos de produção de "Milagres de Jesus" utilizando o know how da produtora Academia de Filmes, a Globo quis dar uma cara cinematográfica para "Felizes Para Sempre?". Por isso, chamou a O2 Filmes, produtora do cineasta Fernando Meirelles que já trabalhou em parceria com a emissora em produtos como "Som & Fúria" e "A Mulher do Prefeito".
"A maioria dos projetos que realizamos em parceria foi apresentada pela produtora. Mas, desta vez, foi diferente: a Globo tinha o texto do Euclydes (Marinho) e nos convidou para conduzir a realização", conta Meirelles, que assina a direção geral da série.
A produção que abriu as portas para esse tipo de empreitada foi "Abolição", de 1988. O especial de quatro episódios foi feito em comemoração aos 100 anos do fim da escravidão e coordenado pelas produtoras Cininvest e Avan, com créditos divididos ente Walter Avancini e Paulo César Ferreira. No entanto, o tema e a estética diferenciada não encontraram apelo popular e a série não teve tanta repercussão.
Nos início dos anos 1990, a emissora voltou a se associar a uma produtora independente, no caso, a TV Plus, para fazer "O Sorriso do Lagarto", que teve direção de Roberto Talma. No entanto, só mesmo na virada dos anos 1990 para os anos 2000 que o mercado de coproduções começou a aquecer.
Na Globo, um dos entusiastas dessas parcerias é Guel Arraes, mente por trás dos contratos da emissora com produtoras como a Casa de Cinema de Porto Alegre e a Conspiração Filmes, responsáveis por títulos como "Luna Caliente", de 1998, e "A Mulher Invisível", de 2011, respectivamente. "O fato da emissora se abrir ao que está sendo feito pelas produtoras é louvável e propicia uma troca de experiências e profissionais. É um diálogo necessário e frutífero", analisa Guel.
Sem grandes estruturas para reformular seu setor de dramaturgia, a Record recorreu a uma coprodução com a Casablanca Filmes para lançar "Metamorphoses", trama que reinaugurou o investimento da emissora em novelas, em 2004. Ao longo da última década, a direção da Record trabalhou com inúmeras produtoras, casos da Gulanne e da Contém Conteúdo, mas é com a Academia de Filmes que a emissora realizou seu acordo mais ambicioso, a série "Milagres de Jesus". "A direção adorou o resultado da primeira temporada. Por isso, encomendamos a segunda. A gente sabia do apelo das histórias e precisávamos de um parceiro para contá-las", explica Anderson Souza, atual diretor de teledramaturgia da emissora.
Sem muitos investimentos em teledramaturgia, pelo menos adulta, Band, SBT e Rede TV! não têm nenhuma coprodução em exibição, mas já recorreram ao serviço nos últimos anos. Nos anos 1990, o SBT realizou em parceria com produtoras novelas como "Dona Anja" e "Colégio Brasil". Atualmente, com o objetivo de voltar ao mercado de novelas adultas, a emissora não descarta a possibilidade de se associar a produtoras para desenvolver conteúdo. "Ainda estamos negociando essas possibilidades. Queremos entregar produtos diferenciados", conta Reynaldo Boury, diretor geral de teledramaturgia do canal.
Mais recentemente, em 2007, o maior projeto da Rede TV! no setor foi a versão nacional de "Desperate Housewives", que aqui se chamou "Donas de Casas Desesperadas". Parceria da emissora com a Disney ABC e a argentina Pol-Ka Producciones, o projeto sofreu com a baixa audiência e foi descontinuado.

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