Cartas de aluna paranaense inspiram escritor português na publicação de um livro. No último fim de semana, ele fez questão de visitar a pequena cidade de Jaboti
A estudante Edna Desplanches, 15 anos, descobriu em 1998 o endereço do escritor português Luís Lourenço, da cidade de Leiria, e resolveu corresponder-se com ele. Edna precisava fazer um trabalho de língua portuguesa, proposto pela professora Marly Terezinha Rodrigues Bressanin, quando era aluna da 7ª série da Escola Júlia Wanderley, em Jaboti (110 km ao sul de Jacarezinho, no Norte Pioneiro).
Edna fazia parte do Projeto ‘‘Descobrindo um Escritor’’, criado pela professora para estimular alunos a lerem mais. A receptividade do escritor foi tão grande que ele mandou para Edna uma carta de seis páginas, contando sobre sua vida, fotografias e recortes de jornais com reportagens sobre seus livros.
A correspondência com Edna acabou servindo de inspiração para que Luís Lourenço fizesse mais um livro – ‘‘Cartas a Edna’’, que foi publicado no final de 1998. ‘‘Foi o meu presente de Natal,’’ afirma Edna, que hoje em dia não descarta a possibilidade de ser uma escritora.
O livro de Luís Lourenço traz as cartas trocadas entre os dois, fotos dela e dele e a vida do escritor desde a infância. Já vendeu 3 mil cópias em Portugal e está na segunda edição. Luís Lourenço planeja agora terminar outro livro, também inspirado nas correspondências com os alunos de Jaboti. Será uma obra que o autor chama de ‘‘contos juvenis’’, com alunos portugueses e brasileiros. ‘‘O nome ainda é uma surpresa’’, conteve-se Lourenço.
No último domingo o autor encontrou com Edna no aeroporto de Londrina. Ele vinha de um encontro de escritores no Recife. Depois seguiram para Jaboti, onde toda a cidade mobilizou-se para receber o autor.
O Projeto ‘‘Descubra um Escritor’’ começou a funcionar em 1997 e foi uma idéia da própria Marly Terezinha. De lá para cá a professora calcula que mais de 100 crianças já participaram do projeto.
Professora de língua portuguesa, da 5ª a 8ª série, Marly queria que os alunos adquirissem o hábito da leitura e da pesquisa. Queria também ensinar alunos a escreverem cartas, aperfeiçoando a ortografia, gramática e escrita, além de formar leitores críticos e criativos.
‘‘Os alunos quase não liam, muitos nunca tinham chegado a ler um livro inteiro, então percebi que não associavam a leitura à inspiração de uma pessoa, o autor. Portanto, não tinham conhecimento do significado da leitura.’’
A professora levou para a sala de aula a idéia de enviar cartas a autores brasileiros que mais tarde expandiu-se para outros autores na Europa, Estados Unidos e Japão. As cartas, algumas escritas em português e outras em inglês, foram um incentivo para crianças que nunca tinham escrito antes.
Marly apresentou aos alunos diversos livros e catálogos com nomes e endereços de escritores brasileiros e estrangeiros para que os alunos escolhessem a quem mandariam suas cartas. O passo seguinte foi ensiná-los como escrever.
O projeto deu tão certo que hoje os alunos correspondem-se com escritores brasileiros e de outros países. No primeiro contato com o escritor o aluno escreve contando sobre o projeto e faz perguntas sobre suas obras. A professora também escreve. As despesas ficam por conta do aluno e da professora, o que muitas vezes tem inviabilizado que os contatos sejam mais constantes.
De acordo com a professora, quando o correio chega a Jaboti é uma festa. ‘‘Chega material todo o dia’’. Os autores, segundo Marly, têm se mostrado muito atenciosos, ‘‘respondendo as cartas falando dos seus sentimentos como se fossem velhos conhecidos’’, demonstrando interesse em continuar a correspondência, enviando além de cartas, livros, jornais, revistas, bandeiras, fitas de vídeos, fotos, fitas cassetes, entre outros. Os alunos lêem os livros e escrevem novamente para o autor, agora com argumentos e perguntas criativas. ‘‘Fica estabelecida a amizade’’, garante a professora.
Hoje Marly participa de intercâmbios com escolas de todo o Brasil, que aderiram ao projeto, e de outros países. Não há nenhum apoio institucional ou financeiro e a iniciativa que começou de um sonho particular da professora sofre interrupção cada vez que o aluno passa da 8ª série do ensino fundamental para a 1ª série do ensino médio. Mas ela não desiste. A cada nova turma de Português o projeto é reiniciado como forma de avaliação dos alunos.
O único reconhecimento, de acordo com a professora, está na adesão de outras escolas que estão implantando o projeto e na produção do livro ‘‘Os alunos em busca de um autor’’, da escritora de Taubaté (SP), Tereza Freire Vieira.

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