Tristeza e finitude
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Último trabalho do diretor dinamarquês Lars von Trier (''Dogville'', ''O Anticristo''), o filme ''Melancholia'' - estreia da semana na programação do Cine Com-Tour/UEL - é mais um exemplar notável do polêmico cineasta, que consegue explorar um pesado drama familiar, com vertentes existenciais e psicológicas, sob um pano de fundo apocalíptico.
O longa-metragem, dividido em dois capítulos, expõe logo em seu começo a grandiosidade trágica que almeja; as fantásticas cenas iniciais - gravadas em super câmera lenta - são confusas, hipnotizantes e repletas de significados, muitos deles que só poderão ser desvendados no final da projeção.
Após quase dez minutos deslumbrantes, somos levados ao dia do casamento de Juliette (Kirsten Dunst) e de seu noivo Michael (Alexander Skarsgord), e observamos a felicidade compartilhada pelos recém-casados ao se atrasarem para a recepção. A festa, realizada em uma maravilhosa mansão - residência da sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg), seu marido John (Kiefer Sutherland) e seu filho pequeno (Brady Corbet) - é repleta de glamour e tem tudo para ser perfeita.
O problema é que o comportamento da noiva, durante a cerimônia, começa a apresentar uma paleta de estranhas emoções. Dona de um misterioso 'sexto sentido' que nunca é plenamente esclarecido (mas que pode ser atribuído também à sua mãe intragável, interpretada por Charlotte Rampling), é visível a preocupação de Claire com o bem-estar de Juliette, que transita erroneamente entre momentos de alegria, histeria, depressão e medo.
No segundo capítulo, algumas semanas depois do casamento, vemos uma Juliette magra, depressiva e auto-destrutiva, que busca conforto na hospitalidade da irmã. No horizonte, a esfera do planeta Melancholia está em provável rota de colisão contra a Terra. O fim do mundo se aproxima, inevitável e impiedoso.
Obra-prima do diretor dinamarquês, ''Melancholia'' possui tons extremamente pessoais de von Trier, que sofre de depressão profunda e de diversas outras fobias; uma vez o cineasta afirmou que ''fazer um filme é como tirar uma pedra do sapato'', e não é por acaso que suas obras são repletas de importantes reflexões filosóficas, das quais é impossível sair impassível. A intepretação complexa de Dunst é ponto essencial para demonstrar com clareza os conflitos internos da personagem principal, e a atuação rendeu para ela o justo prêmio na categoria de ''Melhor Atriz'' em Cannes (mesmo Festival do qual von Trier foi banido para sempre, depois de uma declaração simpática ao nazismo).
Com um desfecho emocionante e provocativo, o embate entre as diferentes personalidades das irmãs constrói uma tensão que progride até o momento final. De um lado, a esperança cega e o desespero; do outro, a resignação pacífica e aceitação de uma existência sem significado. O mundo acaba e, em seu lugar, só resta o vazio.


