A TV já revelou, em tom de denúncia, o interior dos hospitais psiquiátricos brasileiros. Não menos contundente, o fotógrafo paulistano Claudio Edinger conseguiu manter a insenção do olhar ao registrar em livro sua incursão pelo universo dos doentes mentais.
Claudio Edinger/ReproduçãoEdinger está lançando o livro Loucura (editora DBA), que reúne uma série de fotos de pacientes internados no asilo do Juqueri, em São Paulo. As imagens, que foram clicadas entre 1989 e 1990, só puderam vir agora a público por razões de mercado. ‘‘As editoras se recusavam a publicar uma obra com pouco apelo comercial’’ - diz ele.
As fotos, evidentemente, chocam. O livro traz 72 páginas reunindo imagens em grandes dimensões (formato 25 cm x 25 cm). É seu sexto título publicado. Nos volumes anteriores abordou temas como o Carnaval, os habitantes de Havana (capital de Cuba) e o legendário Hotel Chelsea (de Nova York). Ele conta que o projeto do novo trabalho nasceu da perplexidade diante da doença mental que acometeu sua avó.
Claudio Edinger/Reprodução‘‘Em 84, quando morava em Nova York, vim passar férias no Brasil e encontrei minha avó de cama usando fraldas e mamadeira. Ela havia perdido a razão, o que me abalou porque ela era uma mulher lúcida, inteligente e querida por todos. Para amenizar o choque, comecei a fotografá-la. Não mostrei essas fotos para ninguém, mas a partir desse drama pessoal o assunto loucura passou a me perseguir por vários anos.’’
O hospital psiquiátrico do Juqueri surgiu-lhe, então, como a principal referência para sua pesquisa já que na ocasião era a maior instituição para doentes mentais da América Latina. A permissão para poder entrar com sua câmera, no entanto, foi resultado de oito longas semanas de negociação.
‘‘Os administradores temiam que eu fosse fazer alguma reportagem de denúncia, o que não era o caso. O meu interesse era de pesquisa, eu queria entender a loucura’’ - lembra. Após convencê-los, Edinger chegou a dormir algumas noites no asilo dividindo um quarto com um enfermeiro. Os internos o receberam sem problemas.
Claudio Edinger/Reprodução‘‘A triste realidade é que apenas 5% deles recebem visitas. Então eles adoram receber atenção. Antes de fazer esse trabalho, eu achava que os doentes mentais viviam como vegetais ambulantes. E não é assim. Eles são carentes de carinho, são como bebezinhos’’. Através da pesquisa, Edinger chegou também à constatação de que as ciências médicas ainda engatinham no tratamento da doença mental.
‘‘Sabemos pouco. A única forma que encontraram é através das drogas. Estamos na pré-história da psicologia’’ - diz. Preocupado com a repercussão do livro, o fotógrafo recusa qualquer tentativa de vincular seu novo trabalho à exploração comercial de dramas íntimos com a exposição pública da privacidade alheia. ‘‘Sei que é um assunto delicado’’ - argumenta. ‘‘Mas sempre temos que pesar na balança o que a sociedade ganha com isso. Temos sempre que levar em conta dois critérios: o primeiro é saber até que ponto as pessoas que são objetos de sua pesquisa vão ser prejudicadas, e o segundo é saber se a sociedade vai aprender algumas coisa com ela.’’
Apesar do lançamento tardio no Brasil, a série de fotos contempladas em Loucura já recebeu o prêmio Ernst Haas do Maine Photographic Workshop, o prêmio finalista da revista ‘‘Life’’ no W. Eugene Smith Award e o título de revelação do festival fotográfico de Perpignam em 1992.

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