Trinta anos de romaria
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quinta-feira, 02 de julho de 1998
Ranulfo Pedreiro 
A década de 60 já se aproximava do fim quando Gal Costa e Sílvio César subiram ao palco do Festival de MPB da TV Record para interpretar Dadá Maria. A classificação da música ajudou a projetar um jovem compositor, que chegara havia pouco do interior de São Paulo. No Festival seguinte, Renato Teixeira emplacaria outra música: Madastra, interpretada por Roberto Carlos.
Era o início da romaria de um compositor que, desde o início, procurou a aproximação entre a música caipira e a MPB, entre a movimentação musical da época e as duplas sertanejas que ouvira na infância. Renato Teixeira, mesmo com características urbanas, já unia a sofisticação alcançada pela música brasileira com valores da zona rural.
O músico está comemorando 30 anos de carreira com o disco Tocando em Frente - 30 Anos de Romaria, lançado pela gravadora Kuarup. Além dos sucessos de Teixeira, como Amizade Sincera e Sina de Violeiro, o trabalho traz ainda a participação do violonista e arranjador Natan Marques. É esse o show que Renato Teixeira mostra hoje em Londrina, a partir das 22 horas, no Água Viva Bar.
Apesar do início promissor, o sucesso demorou a chegar. Os festivais se tornaram escassos e o músico passou a compor jingles para continuar morando em São Paulo. Meu primeiro sucesso só viria em 1977, quando Elis Regina gravou Romaria. A partir daí comecei a desenvolver minha carreira e apresentar a proposta de fazer uma ponte entre a música caipira e a MPB, explica Teixeira.
O interesse pela MPB não fez com que o compositor abandonasse as origens: Tenho uma formação de MPB, mas totalmente interiorana, e minha vivência e poesia abrangem um pouco disso. Eu precisava cantar algo que entendesse, o próprio ato de compor me induz a assuntos que eu possa tocar.
A proximidade com a música caipira proporcionou a Renato Teixeira uma visão aguçada sobre as transformações que a música sertaneja vem sofrendo. Como artista, não tenho a popularidade que as duplas de hoje têm, mas como compositor meu trabalho dura mais que o deles. É uma relação que me lembra uma frase de Samuel Wainer. Ele dizia: O Lacerda não me deixou ser o maior jornalista do País, e eu não o deixei ser presidente.
A representatividade das duplas com o público, para Renato Teixeira, conquistou o apoio da mídia. Quando morreu o Leonardo, a mídia revelou o sonho de dois brasileiros que resolveram montar uma dupla. A estrada foi dura e eles venceram, atingindo um resultado inesperado sem perder a simplicidade. Os signos da roça ainda estão presentes, comenta.
Já a estrada seguida por Teixeira teve rumos diferentes. Filho de funcionário público, o compositor mudou-se de Taubaté para São Paulo às vésperas da fase mais acirrada do regime militar. Muita gente foi embora, não havia mais shows, a cultura estrangeira invadiu a mídia, sobrando só cerca de 20% de espaço para a música brasileira, recorda-se.
As dificuldades da época não abalaram suas perspectivas: Eu me propus a não deixar que a música me fizesse infeliz, sempre tive uma relação muito boa com meu trabalho e o mercado, talvez por isso eu vá meio devagar. Tendo casa, cama e um prato de comida, eu fico tranquilo.
A amizade com Natan Marques vem desde o lançamento do primeiro disco, também por volta de 1977. Marques se apresentava com Elis Regina, e a aproximação com Renato Teixeira se deu quando ela gravou Romaria. Mas, para compor, a única parceria de Teixeira é com o violeiro Almir Sater. Nossa produção é lenta, ninguém força a barra. Às vezes nos encontramos, tocamos um pouco e aí surge alguma coisa.
Essa naturalidade também se reflete no show, que traz algumas características de roda de viola. O meu espetáculo nunca se repete, ele interage o tempo todo com a platéia. Me considero um tocador de violão, daqueles que o povo senta em volta para ouvir, esse é o espírito da minha música, ressalta.
O compositor está preparando um novo álbum que será lançado ainda neste ano. Sombra e Água Fresca deve estar pronto em um mês, e também conta com a participação de Natan Marques. O CD vai reunir algumas músicas de Teixeira que, por um motivo ou outro, ficaram de fora quando sua carreira se expandiu e a tecnologia digital desovou várias coletâneas no mercado. Está na hora de mostrar músicas novas, mas se lá atrás tem uma composição boa que ficou meio esquecida ou que eu não gravei, ela pode entrar no repertório. Meu compromisso não é com o mercado, mas com a cultura popular brasileira e o que ela tem de mais expressivo, acrescenta.
A ligação de Teixeira com o Paraná é antiga. Ele já morou em Porecatu, durante a infância - onde sua família ainda tem parentes - e possui amigos em Londrina, onde vez ou outra aparece para uma visita. Gosto muito da região, é uma alegria grande. O Paraná faz parte da história da minha vida. No ano passado toquei em Curitiba e foi uma loucura, teve até engarrafamento. O show contará com abertura da banda paulista Face Oculta.
Tocando em Frente - 30 Anos de RomariaShow com Renato Teixeira e Natan Marques. Às 22 horas no Água Viva Bar, às margens do Lago Igapó 2, em Londrina. Os ingressos antecipados custam R$ 15,00. Informações e reservas pelo telefone (043) 324-8929.Arquivo FolhaRenato Teixeira: Me considero um tocador de violão, daqueles que o povo senta em volta para ouvirRenato Teixeira mostra em Londrina, acompanhado pelo
violonista
Natan Marques, os maiores sucessos de sua
carreira


