Nilson Monteiro, Nelson Capucho e Ademir Assunção: reconhecidos nos anos 1980, eles voltam à cena para falar de suas experiências literárias, neste sábado, em Londrina
Nilson Monteiro, Nelson Capucho e Ademir Assunção: reconhecidos nos anos 1980, eles voltam à cena para falar de suas experiências literárias, neste sábado, em Londrina



Há 35 anos, três jovens amigos e parceiros de trabalho decidiram reunir alguns dos poemas que haviam escrito até então. Apesar da pouca idade, pouco mais que 30 anos, já acumulavam várias produções e eram ativos em movimentos e grupos literários de Londrina, além de festivais de música e poesia desde a década de 1970. "Nesta época, início dos anos 80, trabalhávamos na Folha de Londrina. Havia uma coluna no jornal no caderno de Cultura, chamada "Leitura", na qual eram publicados textos de muita gente boa. Um dia, em conversa, decidimos também mostrar alguns dos poemas que nós tínhamos produzido. Cada um escolheu aqueles que mais gostava e montamos uma antologia", recorda-se Nelson Capucho, sobre o trio formado por ele, Nilson Monteiro e Ademir Assunção, o Pinduca, que estarão neste sábado (12), às 10h, no último dia da programação da 14ª edição do Londrix (Festival Literário de Londrina) para a palestra "Ecos dos anos 80: Poesia Londrina". O evento é gratuito e será realizado no Museu Histórico.

A conversa ficou séria e deu origem ao livro alternativo intitulado "Em Família" (1983), pago com recursos próprios, que trazia na capa uma foto dos três devidamente alinhados vestindo terno. Porém, na contracapa, a imagem debochada do grupo com shorts, meia e chinelo na parte de baixo. "De família, pelo menos aos moldes tradicionais da época, não tínhamos nada; estávamos mais para um bando", satiriza Nilson Monteiro, que foi editor da FOLHA e da coluna em questão, lembrando a parceria anterior que se estendia ao grupos de poesias e boemias. De lá para cá, continuaram na vida literária com poemas e, também, romances, cada um ao seu estilo. Neste reencontro, eles prometem relembrar passagens do passado, processo criativo individual e coletivo, formas e conteúdos dos textos e visão sobre a produção contemporânea. "Não paramos de escrever e melhoramos com o tempo, mas diria que o único que seguiu de forma profissional, no mercado editorial mesmo, foi Ademir", pontua.

Imagem ilustrativa da imagem Trinca de ouro no Londrix



CRIAÇÃO - Considerados revelações do jornalismo da década de 60 e 70, era na poesia, sobretudo, que eles davam vazão aos sentimentos em pleno período de ditadura. "Durante um tempo, nos reuníamos em um grupo aos sábados na Biblioteca Pública para discutir sobre criação, influências de autores e analisar outros trabalhos. Havia os perfis mais combativos, engajados, mas também os influenciados pelos modernismo e concretismo. Londrina bebia de várias fontes e ocorria essa troca de conhecimento. A cidade era um caldeirão cultural com tendência cosmopolita", lembra Capucho. Destes encontros resultou, inclusive, o livro "Os Amigos e Inimigos" (1981), uma espécie de produção coletiva de "iniciantes e iniciados". "Londrina tinha gerações fortes e representativas de poetas. Durante anos, Marinósio Trigueiros Filho organizou o "Mural de Poemas", um evento reunindo grande parte desse pessoal, que dava uma amostra do trabalho dos escritores", acrescenta Monteiro.

Imagem ilustrativa da imagem Trinca de ouro no Londrix
| Foto: Fotos: Divulgação



POESIA HOJE - Mais de três décadas depois, ambos destacam a experiência de vida e conhecimento cultural adquirido ao longo dos anos em sua produção. "Para mim, o objetivo e arbítrio da poesia continuam o mesmo. Mas, os anos vividos não foram em vão. Hoje, trabalho muito melhor na forma e conteúdo", comenta Monteiro. Já Capucho destaca a evolução do seu lado mais lúdico. "Acredito que, com os anos, fiquei mais cuidadoso. O próprio recolhimento em alguns momentos também refletiu na criação de um poema mais intimista e com leveza." Já com relação ao futuro do gênero, eles têm visões distintas, porém otimistas. "Ainda há muitos leitores de poesia, mas creio que esta tende a migrar mais para a música e para o vídeo", aposta Capucho. Monteiro, por sua vez, destaca a sociedade imagética atual, contudo, ainda acredita na importância das palavras. "O texto, inevitavelmente, leva o leitor a um raciocínio; a poesia ainda mais. Ele é ponto de partida para qualquer outro tipo de linguagem."

O livro "Em Família", publicado em 1983, tinha na capa uma imagem formal dos três poetas que, na contracapa, assumiam toda sua irreverência
O livro "Em Família", publicado em 1983, tinha na capa uma imagem formal dos três poetas que, na contracapa, assumiam toda sua irreverência | Foto: Fotos:Reprodução



OBRAS - Durante a trajetória, os três escritores acumulam experiências nos principais veículos de imprensa do Estado e nacionais. No campo da literatura, Nilson Monteiro ocupa, atualmente, a cadeira 28 da Academia Paranaense de Letras e publicou livros de poesias como "Simples" (1993), de crônicas como "Curitiba vista por um pé vermelho" (2013); além do romance "Mugido de Trem" (2013). Nelson Capucho publicou "Solta Chama" (1980), "Sundae Cogumelo" (1983), "Vida Vadia" (1995) e "Feiticeiro Inventor" (1986). Ademir Assunção, no final dos anos 80, iniciou parceria artística com o cantor e compositor Edvaldo Santana. Após a publicação de "LSD Nô" (1994), seu livro de estreia, passou a se dedicar mais à linguagem artística. Em 2013 recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Poesia com "A Voz do Ventríloquo" (2012) e publicou o romance "Ninguém na Praia Brava" (2016).

Londrix encerra a programação
Fechando a programação do Londrix, será realizada a palestra "No Fim da Infância: Londrina por Arrigo Barnabé", com Tony Hara, às 18h, com análise de textos memorialísticos sobre a infância e a juventude de Arrigo Barnabé, em Londrina, publicados originalmente pela revista Piauí. Logo mais, às 19h30, o jornalista Felipe Melhado conduz a palestra "Os Últimos Textos de Paulo Leminski", em que falará sobre os oito ensaios derradeiros do poeta curitibano publicados pouco antes de sua morte, em 1989, no jornal Folha de Londrina.
A 14ª edição do festival, realizado pelo Grupo Atrito Arte Artistas e Produtores Associados (Aarpa) teve seis dias de programação promovendo debates literários, levando poesia e prosa a vários espaços da cidade, e discutindo a escrita e suas múltiplas linguagens. Além disso, foram realizados saraus, oficinas formativas, debates com nomes importantes da literatura, palestras e encontros, performances, shows, lançamento de livros e exposição.

Imagem ilustrativa da imagem Trinca de ouro no Londrix



Sábado (12)
I Encontro de Clubes de Leitura", às 9h
Palestra "Ecos dos anos 80: Poesia Londrina", com Nelson Capucho, Ademir Assunção e Nilson Monteiro, às 10h
Apresentação do espetáculo infantil "Vikings e o Reino Saqueado", às 11h
Lançamentos e sessão de autógrafos, às 15h
Debate "O Que Lê Quem Escreve?" com o Coletivo Versa, às 16h30
Palestra "No Fim da Infância: Londrina por Arrigo Barnabé", com Tony Hara, às 18h
Palestra "Os Últimos Textos de Paulo Leminski", com Felipe Melhado, às 19h30
Onde: Museu Histórico de Londrina (rua Benjamin Constant, 900)
Quanto: Gratuito

Cabaré Londrix com "Londrina Ska Clube e Abrakadan Sounds", às 22h
Onde: Vila Cultural Cemitério de Automóveis (av. Arthur Thomas, 342)
Quanto: R$ 10

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