Trinca de damas
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de maio de 2005
André Bernardo<br> TV Press 
TEVÊ
Trinca de damas
Nem o mais otimista dos executivos da Record poderia imaginar que ''A Escrava Isaura'' faria o sucesso que fez. A nova versão do clássico de Bernardo Guimarães, escrita por Tiago Santiago e dirigida por Herval Rossano, alcançou média de 15 pontos e picos de 20. Com isso, conquistou a vice-liderança no horário das 19 horas e obrigou o SBT a mexer em sua grade. Para consolidar sua posição, a emissora resolveu não arriscar. Hoje estréia ''Essas Mulheres'', mais uma novela de época baseada em um clássico da literatura brasileira. Em um, não; em três. Escrita por Marcílio Moraes e Rosane Lima, concilia três romances de José de Alencar, ''Senhora'', ''Lucíola'' e ''Diva''. ''A Escrava Isaura não surpreendeu só a Record, mas a todo o mercado. Por isso, existe uma expectativa da nossa parte de fazer um trabalho tão bacana quanto o anterior'', avalia o diretor Flávio Colatrello, que troca de emissora depois de 18 anos de Globo.
Mas Colatrello não é o único. Enquanto não monta seu ''cast'' fixo - Bianca Rinaldi e Déo Garcês foram os primeiros a assinarem contratos longos -, a Record convoca atores ''freelancers'' para trabalharem em suas novelas. Carla Regina é uma delas. A atriz já passou por diversas emissoras, como Globo, SBT e Manchete. Na Record, protagonizou, há cinco anos, ''Marcas da Paixão'', de Solange Castro Neves. ''Sou uma atriz e, como tal, dependo de convites. E, de preferência, convites bons e interessantes'', ressalta a atriz, que interpreta Maria da Glória em ''Essas Mulheres''. De família pobre, entra em desespero quando os pais adoecem de febre amarela. Sem saber o que fazer, se prostitui para ajudá-los. Até que se torna Lucíola, a cortesã mais desejada do Rio de Janeiro.
Tão sofrida como Maria da Glória só mesmo Aurélia Camargo. Interpretada por Christine Fernandes, é uma jovem pobre que come o pão que o diabo amassou depois que o pai morre. Para sobreviver, aceita trabalhar como criada na casa de sua maior rival, a odiosa Adelaide, vivida por Adriana Garambone. Até que, um dia, recebe uma herança deixada por um avô distante e realiza o maior sonho de sua vida: casar-se com Fernando Seixas, interpretado por Gabriel Braga Nunes. Sem fazer novelas desde ''Estrela-Guia'', de 2001, Christine volta à tevê depois do nascimento de Pedro, hoje com 1 ano e nove meses. ''Nenhum outro veículo dá um feedback tão imediato quanto a tevê. Foi só a Record exibir as primeiras chamadas para eu sentir a reação do público nas ruas'', valoriza.
Ao contrário das desafortunadas Maria da Glória e Aurélia Camargo, Mila Duarte, personagem de Míriam Freeland, é a mais abastada das três protagonistas de ''Essas Mulheres''. Irrequieta, vive a contestar os limites morais impostos às mulheres de sua época. Por isso, entra em conflitos com a mãe, Leocádia Duarte, interpretada por Ana Beatriz Nogueira. Acometida de graves distúrbios psicológicos, vai suscitar ainda mais polêmica ao se envolver com o médico negro que cuida dela, o Dr. Augusto, vivido por Alexandre Moreno. Pela quarta vez consecutiva, volta a trabalhar numa produção de época. Antes, já havia feito ''O Cravo e a Rosa'', ''Esperança'' e ''Um Só Coração'', todas na Globo. ''Costumo dizer que devo ter cara de camafeu. Mas não me incomodo. A oportunidade de viver diferentes épocas é sempre enriquecedora'', elogia ela.
Embora moradoras do Rio de Janeiro da segunda metade do Século XIX, Maria da Glória, Aurélia Camargo e Mila Duarte jamais se encontraram na literatura de José de Alencar. Já na novela da Record, serão amigas íntimas. O autor de ''Essas Mulheres'' providenciou um elo entre as três: Ordália, de Luciene Adami. Apesar de não existir em nenhum dos três romances, a professora de piano e francês entrelaça a vida das três heroínas. Falecido em 1877, José de Alencar morreu deixando inúmeras obras-primas da literatura brasileira, como ''O Guarani'', ''Iracema'' e ''As Minas de Prata''. Muitas, inclusive, já adaptadas para a tevê. ''O José de Alencar é um ficcionista extremamente portentoso. Não é à toa que o próprio Machado de Assis nutria fervorosa admiração por ele'', destaca Marcílio Moraes.


