Trilogia "entre quatro paredes" de Jabor sai em DVD
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quarta-feira, 13 de outubro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 14 (AE) - Cadeira Mackintosh, poltrona Rietveld, néons de Thereza Simões, televisores de Jorge Barrão, tapetes persas - os objetos da casa (modelo Oscar Niemeyer dos anos 50) de "Eu Sei Que Vou Te Amar" são o supra-sumo da pós-modernidade. Até por causa deles, Arnaldo Jabor foi definido como Nélson Rodrigues pós-moderno por aquele filme que encerrou sua trilogia "entre quatro paredes". A trilogia está saindo em DVD. A Versátil tem, para entrega imediata (é pedir e receber), dois dos três filmes: "Eu Sei Que Vou Te Amar" e o anterior, "Eu Te Amo". Fica faltando o primeiro, "Tudo Bem", que a Versátil promete para breve, tão logo sejam resolvidos problemas autorais que entravam o lançamento do filme e de "Toda Nudez Será Castigada".
Três filmes desenrolados em cenários praticamente únicos
com personagens reduzidos - "Tudo Bem" nem tanto, porque inclui a família, a empregada e os operários que trabalham na obra dentro de casa. Mas "Tudo Bem" tem quatro personagens e "Eu Sei Que Vou Te Amar" apenas dois. Não por acaso, os dois últimos viraram peças de teatro do próprio Jabor, que chegou a afirmar, não sem certa provocação, quando o segundo estreou no palco, há quatro anos, que a linguagem do cinema está esgotada e só pode ser renovada por meio do teatro. Típica afirmação de polemista profissional, feita para impressionar.
A linguagem do cinema não só não está está esgotada como nestes quatro anos têm surgido algumas propostas interessantes, bastando citar apenas a dos monges-cineastas dinamarqueses, o Dogma. Provocações à parte, cabe destacar a importância do lançamento dos DVDs de Jabor. Os filmes estão sendo lançados em cópias remasterizadas, com imagem e som nota 10. Como a Versátil costuma caprichar, há toda aquela parafernália que compõe o cardápio dos lançamentos de DVD: legendas em inglês, uma entrevista do diretor (diferente em cada filme), filmografia dele e dos atores, tudo isso e mais a seleção de cenas, que permite ao espectador chegar mais rapidamente às imagens que quer ver.
"Eu Sei Que Vou Te Amar" é de 1986. Há 13 anos, portanto, que Jabor está sem filmar. Virou jornalista, um cineasta das palavras. Em sucessivas entrevistas, ele afirma que não pretende voltar à direção. Tem muitos projetos de filmes, até roteiros, engavetados. Um deles, com certeza, é o de "Reflexos do Baile", pois lá pelo fim dos anos 80 ele anunciava sua intenção de adaptar o romance de Antônio Callado, que o próprio autor considerava o melhor de sua carreira, superior a "Quarup", que Ruy Guerra adaptou (sem muito êxito, diga-se de passagem).
"Reflexos do Baile", o livro, é de 1976. Relembra a onda de sequestros de embaixadores, ligando-se à temática da ação clandestina durante os duros anos da ditadura. Se adaptado abriria novos rumos para o projeto cinematográfico de Jabor. Talvez ele saísse das quatro paredes. Sua obra de autor de cinema encerra-se, por enquanto, com esses filmes sobre o amor. "Eu Te Amo" é um psicodrama a dois: mostra os personagens de Sônia Braga e Paulo César Pereio que partem da relação de uma noite para uma ligação, quem sabe, mais duradoura, representada pela dança no fim.
O psicodrama de certa forma prossegue com o outro casal, mais jovem, de "Eu Sei Que Vou Te Amar", interpretado por Fernanda Torres (em desempenho premiado no Festival de Cannes) e Thales Pan Chacon. Como é que as pessoas fazem para amar de novo
depois que a relação homem-mulher passou por tantas transformações? Jabor partiu dessa interrogação para fazer "Eu Sei Que Vou Te Amar". E disse que seu objetivo confesso foi fazer o filme se colocando no ângulo da mulher. Não é nem nunca pretendeu ser um filme realista. O próprio diretor disse que é para ser visto como um mergulho psicanalítico.
"Não procurem verossimilhança nem causas", adverte. É um filme muito falado, verborrágico mesmo, mas em nenhum momento aborrecido. Tudo o que se diz em cena é relevante. E como Jabor, além de cineasta, é cinéfilo, há brincadeiras com Gláuber e Fred Zinnemann. Serviço - "Eu Te Amo". Brasil, 1982. Direção de Arnaldo Jabor, com Sônia Braga, Paulo César Pereio e Vera Fischer. "Eu Sei Que Vou Te Amar". Brasil, 1986. Direção de Jabor, com Fernanda Torres e Thales Pan Chacon. Distr.: Versátil (tel. 263-7401). Preço: R$ 29,90.


