Trilha sonora já foi objeto de desejo de colecionadores. Hoje em dia, todo mundo tem pelo menos um exemplar em sua CDteca. Trivializada pela indústria fonográfica, a música para cinema virou música para milhões apagando qualquer vestígio de gênero cult com sua presença cativa nas listas da Billboard.
A relação de ‘‘best-sellers’’ do gênero, aliás, é capaz de causar inveja a qualquer astro pop em ascensão. O disco de ‘‘Titanic’’, por exemplo, vendeu mais de 10 milhões de cópias só nos Estados Unidos batendo os recordes alcançados anteriormente por ‘‘Carruagens de Fogo’’ e ‘‘Grease – Nos Tempos da Brilhantina’’.
No Brasil, dezenas de títulos infestam o mercado a cada temporada, não faltando aqueles que chegam às lojas antes mesmo da exibição do filme do qual se originaram. Os lançamentos desta vez variam de clássicos temáticos a músicas de desenho animado passando pelas habituais coletâneas pop nem sempre recomendáveis.
A gravadora ST2 Records continua suprindo o filão através de sua divisão especializada, que desencava tesouros da Metro-Goldwyn-Mayer. Seu novo pacote traz as trilhas dos filmes ‘‘Carrie (Carrie, a Estranha)’’ e ‘‘The Living Day Lights (007 Marcado para a Morte)’’, além do CD temático ‘‘Best of The West (O Melhor do Oeste)’’, o grande lançamento de toda a fornada recente.
A Abril Music também aposta no gênero colocando, de uma só vez, cinco discos nas lojas. A Roadrunner contribui com ‘‘The Rock (A Rocha)’’, enquanto a Universal amplia a tendência com ‘‘Bossa Nova’’, a única trilha verde-amarela da penca. Esta última foi organizada pelo renomado Eumir Deodato, produtor radicado desde os anos 70 nos Estados Unidos.
Além de compor músicas exclusivamente para o longa, Deodato criou novos arranjos para dez canções de Tom Jobim, entre elas ‘‘Corcovado’’, que aparece na versão escolhida para tema de abertura da novela ‘‘Laços de Família’’ (Globo) com João Gilberto dividindo os vocais com Astrud Gilbert.
Pelo repertório, o disco soa como uma antologia da bossa que ‘‘conquistou’’ os norte-americanos, o que é reforçado com o sotaque ‘‘universalista’’ imposto aos arranjos e à escolha dos intérpretes. ‘Wave’’ e ‘‘Chega de Saudade’’ recebem releituras instrumentais, enquanto que ‘‘Insensatez’’ traz a voz do cantor pop inglês Sting.
Djavan interpreta ‘‘Só Tinha de Ser com Voc꒒, que inclui participação de músicos da Orquestra Sinfônica de Nova York. ‘‘Inútil Paisagem’’, ‘‘Samba de Uma Nota Só’’ e ‘‘Amor em Paz’’ são cantadas por Barbara Mendes, um nome ainda desconhecido por aqui mas que é figurinha carimbada em Manhattan, onde anima as segundas-feiras de música brasileira no Café Wha!.
‘‘Suddenly’’, de autoria de Deodato, ganha duas versões: uma mais suave na voz Claudia Acuna e outra mais visceral na voz de Carol Rogers. Elis Regina e Tom Jobim comparecem nos duetos imortais de ‘‘Águas de Março’’ e ‘‘Inútil Paisagem’’, extraídos da gravação original de 1974. Embora se sustente como produto independente do filme, ‘‘Bossa Nova’’ não é o filé migon do pacote, título que fica com ‘‘Best of The West’’.
Talvez nunca no mercado brasileiro a musicalidade épica do Velho Oeste tenha sido brindada com uma coletânea tão preciosa. É o primeiro lançamento temático da ST2 Records. O disco reúne algumas das mais impagáveis composições escritas para os filmes produzidos pela United Artistas entre 1958 e 1976. A seleção foi feita por Ian Gilchrist e remasterizada para o formato digial por Toby Mountain.
A compilação inclui a clássica ‘‘The Magnificent Seven Theme’’, de Elmer Bernstein, que figura inclusive numa propaganda televisiva de cigarro. Bernstein é contemplado também com peças assinadas para os filmes ‘‘The Scalphunters’’ e ‘‘The Hallelujah Trail’’. A seleção traz ainda músicas de Dimitri Tiomkin, Jerry Goldsmith, Alex North, Dominic Frontiére e outros discípulos do maestro Aaron Copland, o maior nome do bang-bang score.
Em contraste, a trilha de ‘‘Carrie, a Estranha’’ não se segura sem o filme de Brian de Palma. As faixas alternam diálogos da tenebrosa película, peças orquestrais e temas românticos. Incluído no encarte um texto sobre a produção do longa, a reprodução do cartaz francês da fita e uma faixa bônus em CD-Rom com cenas do filme. A trilha de ‘‘007 Marcado para a Morte’’, de John Barry, também não empolga oscilando entre canções pop (interpretadas pelas bandas A-Ha e The Pretenders) e temas orquestrais.
Diferente da versão lançada originalmente em vinil, esta reedição traz quase 30 minutos a mais de música, mas nem por isso tem duração maior do que a trilha do desenho animado ‘‘Fantasia’’, que chega ao público num CD duplo pela Abril. Regidas pelo maestro Leopold Stokowski, à frente da Philadelphia Orchestra, peças de Bach (‘‘Tocata em Fuga em Ré Menor’’), Tchaikovsky (‘‘Suite Quebra Nozes’’) Beethoven (‘‘Pastoral’’), Schubert (‘‘Ave Maria’’), Stravinsky (‘‘A Sagração da Primavera’’) e outros ilustres estimulam a imaginação de quem viu nas salas a bela história de Walt Disney.
Do pacote da Abril, também se destaca a trilha de ‘‘Meninos não Choram (Boys Don’t Cry)’’, o surpreendente filme que deu o Oscar de melhor atriz a Hilary Swank no ano passado. Despontam faixas de Lynyrd Skynyrd (a clássica de 7 minutos ‘‘Tuesday’s Gone’’), Timmy Thomas e do dueto formado por Nina Persson (vocalista dos Cardigans) e Nathan Larson (guitarrista do Shudder To Think). Diferente da maioria das trilhas pop, esta exclui sonoridades eletrônicas contemporâneas privilegiando trabalhos acústicos devotados ao folk, soul e rock’n’roll.
Completa a fornada as trilhas de ‘‘The Crow (O Corvo)’’ e ‘‘American Psycho (O Psicopata Americano)’’, com a primeira antecipando a exibição do terceiro filme da série. O lançamento vem em dois CDs, um no manjado formato de coletânea pop (Filter, kid Rock, Hole etc) e outro trazendo as peças incidentais do longa-metragem com direito a uma faixa multimídia com protetor de tela, além de quatro novos e originais desenhos de James O’Barr (o criador de The Crow) que podem ser impressos.
‘‘American Psycho’’, por sua vez, massacra a reputação de David Bowie, The Cure, New Order e outros famosos reunindo num só disco algumas de suas mais pífias composições. É tão apavorante quanto o serial killer do filme.

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