São Paulo, 25 (AE) - Diz o diretor Brad Anderson que criou uma personagem, Erin, que incorpora o, digamos, "conceito brasileiro" de saudade. E ele define rapidamente essa palavra que, como diz um samba, não tem tradução: "Um tipo de tristeza que deseja a felicidade". Ainda de acordo com Anderson, a bossa nova encarnaria esse ânimo à perfeição. Tudo isso é discutível, impressionista, mas não deixa de expressar-se na escolha da trilha sonora, que embala o filme de maneira muito próxima à trama.
O repertório traz alguns clássicos (de autoria e interpretação) indiscutíveis. O que dizer de "Desafinado", com Tom Jobim, "Triste", com Elis Regina, "Mas Que Nada", com o Tamba Trio, ou "Aquarela do Brasil", com Elis e Toots Thielemans? São modelos musicais, idéias platônicas do som, formas ideais, como o piano econômico de Tom, a voz técnica e emotiva de Elis, o teclado complexo de Luisinho Eça.
A bossa, como se sabe, é dos anos 60 e até hoje a música brasileira que mais rapidamente se internacionalizou. Por mais que se teorize, essa vocação global é fácil de explicar. A bossa nova fez a fusão do samba brasileiro com a música internacional mais sofisticada, isto é, americana. Usa-se até hoje, nos EUA, a expressão samba-jazz. Claro, tudo isso é um tanto mais complexo e tem de passar pela batida do violão de João Gilberto, esse ritmo absolutamente original, que significou, no duro mesmo, a invenção da bossa.
Divulgada no exterior, a bossa nova tinha duas alternativas. Diluir-se para ser mais bem assimilada ou manter sua personalidade. Seguiu pelos dois caminhos. Se Sérgio Mendes, por exemplo, se integrou, Tom Jobim continuou a ser exatamente o que sempre foi. Produziu nos EUA alguns dos seus melhores álbuns
como "The Composer of Desafinado" e "Urubu", este orquestrado pelo alemão Claus Ogerman.
Essa vocação dupla está na trilha e no próprio filme. No disco, Tom e Elis comparecem ao lado de Vinícius Cantuária e Bebel Gilberto, esta uma prova viva de que a genialidade não é hereditária. Mas, no fundo, o mix entre o diluído e o autêntico é adequado para um filme em que o "brasileiro" fake da história pronuncia "sodade" quando se refere ao misterioso sentimento que intriga o diretor.

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