Trilha sonora é um dos destaques do filme
FOLHA no Google News
São Paulo, 08 (AE) - Muito da beleza de "Paixão Perdida" se deve à trilha sonora composta por Ruriá Duprat e Wilfred Khouri (filho do cineasta). O CD, que está sendo lançado junto com o filme, compõe-se de 18 faixas, que acompanham de perto a muda saga edípica de Marcelinho.
Na origem do projeto musical está o maestro Rogério Duprat, que já colaborara com Khouri em vários outros filmes. Desta vez, ele consentiu em supervisionar a obra, deixando a direção musical a cargo de seu filho, Ruriá, e de Wilfred Khouri. Trata-se de uma trilha perfeitamente integrada ao tratamento visual do filme. Quer dizer, participa de seu clima e pathos, pois foi pensada de maneira a harmonizar-se a um material artístico previamente definido.
Como tal, a música - com a possível exceção da faixa 7, desabridamente jazzística, e que no filme ilustra uma festa em comemoração à volta de Berenice - fica no registro sereno e meditativo de uma busca existencial. É assim ao longo do filme, mas principalmente na abertura, com o tema orquestral buscando criar (mais que ilustrar) o mistério de um jardim japonês onde o espectador é iniciado nos mistérios do garoto que perdeu a fala e os movimentos.
Há, na cena, uma pedra, uma rocha, que reaparece, de modo recorrente, ao longo de todo o filme. Aliás, recorrência que se repete em várias outras obras de Khouri. Aliás, é uma de suas obsessões, qualidade que empresta coerência a uma personalidade, como dizia Nelson Rodrigues. A pedra e o jardim, a grama, os corpos e o desejo humano que perpassa a tudo. Essa ambientação dificilmente seria possível sem essa música mineral que, tranquila e uniforme, tende quase ao silêncio.
Essa linearidade da trilha faz um curioso contraponto com as paixões em fúria que agitam os personagens. A música age a contrapelo, produzindo a sensação de mistério provavelmente desejada pelo diretor. (L.Z.O.)