São Paulo, 19 (AE) - Quando surgem os primeiros selvagens acordes de "Blind", do Korn, você já sabe que o que vem a seguir é tudo, menos um ideário convincente de paz & amor & marofa. "Woodstock 99" (Sony Music), o disco duplo que reconstitui a barulheira que tomou conta da Base Aérea de Griffiss, entre os dias 23 e 25 de julho (na cidadezinha de Roma
Estado de Nova York) é um inventário da diversidade sonora da década de 90. O poder de fogo do Korn é seguido pela dissensão punk do Offspring (The Kids Arent alright) e o barulho vai sendo amenizado até chegar ao rap de Disneylândia de Kid Rock, a suprema baba, com "Bawidaba".
Imaginem o que é ter de aguentar a barbie Jewel (em Down so Long) para poder chegar a Everlast (Ends) e Bruce Hornsby (Resting Place). Mas festivais sempre são fórmulas que misturam alhos e bugalhos e esse CD não é diferente. "O álbum "Woodstock 99" vai capturar a energia viva e a mágica intrínseca a Woodstock", disse o promotor John Scher quando fez os planos para lançar o disco, em setembro. Mas só o vídeo será capaz de mostrar a barbárie que foi o último festival do século, aquele que derrubou toda a aura do primeiro, aquele mítico festival de 1968.
Sobre "Woodstock 99", o baixista do Red Hot Chili Peppers, Flea, disse à reportagem que chorou ao ter notícia, ainda nos bastidores, de ocorrências de abuso sexual e violência generalizada entre o público. Durante as sessões de mosh do show do Limp Bizkit (que comparece no álbum com Show me What You Got)
houve uma sessão de quebradeira e saques promovida por uma juventude vitaminada, cheia de sucrilhos e de classe média. De qualquer modo, descontando-se a selvageria e os bugalhos do disco, sobram bons momentos.
O Metallica propicia um deles, com "Creeping Death". O Rage against the Machine traz outra paulada, com "Bulls on Parade". Além deles, estão ali representados, nas 33 faixas, várias gerações do rock e seus derivados. Os Chemical Brothers representam o derivado mais avançado, o tecno, com o hino "Block Rockin Beats". O Creed representa o cruzamento, tocando o clássico "Roadhouse Blues". Tirando o Megadeth, o disco número um traz praticamente todos os "garotos" do rock. Os "veteranos" estão mais presentes no disco dois, como Elvis Costello (que canta Alison) e o rockabilly Brian Setzer, com sua orquestra (tocando Rock This Town).
É um bom documento de uma era que termina - o atestado do fracasso dos hippies e de seu ideário. Realizado para marcar os 30 anos do primeiro festival, o encontro foi marcado pela falta de escrúpulos fora do palco. Os fãs, que tinham pago até US$ 175 pelas entradas, eram esfolados pelos vendedores de bebidas e comida. Alanis Morissette foi bombardeada com sapatos e as garotas da platéia desrespeitadas. Serviço - "Woodstock 99". CD duplo com músicas de bandas do último festival americano, em julho. Sony Music. Preço médio: R$ 34,00

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