Como imaginar o filme King Kong sem a impactante trilha composta por Max Steiner? E a famosa cena do chuveiro em Psicose, de Hitchcock, teria o mesmo impacto sem a angustiante composição de Herrmann? (um dado curioso: o diretor a havia planejado inicialmente sem música e foi sonorizada por insistência do compositor). E a bem-sucedida parceria entre John Williams e Steven Spielberg, coroada com o lirismo de ET?
A interação entre música e imagem sempre foi tão importante para envolver a platéia que, mesmo na época do cinema mudo, as sessões de cinema eram acompanhadas por um pianista hábil em improvisações. Gorge Meliés chegou a colocar um cantor detrás da tela para que ele dublasse sua própria imagem. Em projetos mais ambiciosos uma orquestra era empregada para reforçar a dramaticidade do que era exibido na caixa mágica.
Para organizar os quase cem anos de cinema sonoro, o designer gráfico Guilherme de Martino escreveu ''Trilhas Sonoras - De Nosferatu a O Senhor dos Anéis - 80 anos de música no cinema''. O livro funciona como um guia básico sobre o gênero, um dicionário de compositores de trilhas sonoras de A a Z, com dados biográficos e comentários sobre algumas obras, além da lista de alguns títulos disponíveis no mercado, acompanhados dos códigos das edições em CD. No final do livro, estão listados os filmes em ordem alfabética (português e títulos originais) e um índice de sites de distribuidoras. Segundo o autor, a sugestão para organizar o guia surgiu de editoras para as quais trabalhava em São Paulo, na década de 90. ''Inspirei-me em uma revista inglesa chamada ''Gramophon'' especializada em trilhas sonoras de músicas clássicas, e decidi elaborar um guia com maior abrangência, contemplando gêneros como black music, eletrônica, pop, jazz'', afirma.
As informações para o livro foram garimpadas na internet, bibliotecas, CDs enviados pelas distribuidoras e no próprio acervo de Martino, composto de cerca de 200 vinis e 500 CDs. A pesquisa para o guia consumiu cerca de cinco anos. De acordo com o autor, o livro traz como primeira referência ''Nosferatu'' (1922) porque uma sinfonia foi especialmente composta para o clássico expressionista de F.W.Murnau. O alemão Hans Erdman foi um visionário que colocou uma orquestra ao vivo para acompanhar a exibição do filme. Na década de 30 o marco foi ''King Kong'' (1933 - trilha de Max Steiner) que ''estabeleceu linguagens, modelos'', conforme o autor do livro. Nesta época, a música passou a dar suporte dramático aos fantásticos acontecimentos vistos na tela.
A década de 50 inaugurou a utilização do jazz no cinema, antes tida como uma música ''maldita'' para trilhas sonoras. A partir daí ocorre a mistura de ritmos, gêneros e influências culturais. Os destaques são Alex North, com ''Uma Rua Chamada Pecado'' (1951), Elmer Bernstein, em ''O Homem do Braço de Ouro'' (1956) e a ''A Marca da Maldade'' (1958), de Henry Mancini. A rejeição aos padrões marcou os anos 60 e 70 e refletiu-se na produção das trilhas para cinema, com conjuntos de dimensões reduzidas ou para grupos instrumentais pouco comuns. Por outro lado, foi nesta época, segundo Martino, que o mercado de trilhas sonoras faturou alto com a explosão da música pop.
Segundo o pesquisador, a qualidade das trilhas sonoras para cinema cai vertiginosamente nos anos 80 com a descoberta do filão adolescente. ''A característica desta década são as músicas pop pré-gravadas. Na esteira das produções de baixa qualidade americanas, as composições para filmes europeus também caem em qualidade e quantidade'', analisa Martino. Segundo o estudioso, os tempos atuais estão sendo marcados pela retomada da trilha sonora instrumental como principal definidora da personalidade de um filme, como é o caso de ''O Senhor dos Anéis'' (2001), composta por Howard Shore. ''Atualmente, o mercado de trilha sonora cresce com a redescoberta de produções antigas, como clássicos do terror e produções francesas e italianas''.

SERVIÇO
- ''Trilhas Sonoras - De Nosferatu a O Senhor dos Anéis - 80 anos de música no cinema''
Autor - Guilherme de Martino
Editora - Eduel
Quanto - R$ 65 (354 págs. capa dura)

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