A trilha sonora típica das festas ganha temperos adicionais no “Concerto Comemorativo de São João” que a Orquestra Acadêmica Bravi promove nesta quinta-feira (13), às 19 horas, no Centro Cultural Sesi/AML. Pela primeira vez, o grupo musical londrinense une temas populares com o música de câmara produzida por instrumentos de cordas friccionadas (como violinos, violas, violoncelos e contrabaixo).

Trata-se da execução de um repertório temático todo organizado e arranjado pelo célebre músico e professor baiano Alfredo Moura, que vem a Londrina especialmente para assistir à comemoração musical. “Tanto a escolha quanto a ordem deste programa raro na música orquestral para cordas deu-se de modo espontâneo, onde nada parece forçado. É essa naturalidade da música popular de qualidade que faz com que tudo se encaixe de forma plena, saudável e interessante. Os instrumentos da orquestra dialogam e agem de modo equilibrado, proporcionando um balé de imagens musicais fascinante”, define o maestro convidado.

A pesquisa sobre os diálogos entre erudito e popular, especialidade de Moura, aliás, mostram-se com destaque no “Concerto de São João”. O repertório, executado por 21 instrumentistas da Bravi, traz onze músicas, dentre elas “Assum Preto” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), “Esperando na Janela” (Targino Gondim, Manuca, Raimundinho do Acordeon) e rapsódias a partir de outros temas de Gonzaga, Genival Lacerda, João Gonçalves, além de motivos de domínio público. Em um dos números, chamado “Ludwig van Gonzaga”, propõe-se um inusitado encontro de Beethoven com o Rei do Baião. “Sua riqueza ultrapassa os limites normais da sala de concerto, ao tratar a música popular com o respeito que ela merece, numa elegância e requinte que vai deixar o público muito contente”, promete Moura, que assina os arranjos junto de alguns de seus alunos soteropolitanos.

Orquestra Bravi faz concerto temático nesta quinta (13) com repertório arranjado pelo maestro baiano Alfredo Moura
Orquestra Bravi faz concerto temático nesta quinta (13) com repertório arranjado pelo maestro baiano Alfredo Moura | Foto: Divulgação

A ideia de executar de forma inédita o “Concerto Comemorativo de São João” em Londrina foi de Jhonatan Santos, coordenador da Orquestra Acadêmica Bravi. Ele conheceu o professor baiano em 2015, quando residia e trabalhava em Salvador, na Orquestra Sinfônica da Bahia e no projeto Neojibá. Foi neste trabalho sociocultural que Moura realizou uma oficina e apresentou seu vasto repertório.

Do axé ao erudito

Você pode até nunca ter ouvido falar no nome de Alfredo Moura, mas quem assistiu ao apogeu da axé music nos anos 1990 com certeza já cantarolou as músicas de sua autoria ou dançou ao som dos arranjos criados por ele para grandes estrelas da música baiana. Um dos precursores do estilo musical festivo que saiu dos trios elétricos de Salvador para conquistar o Brasil, o músico soteropolitano assina em parcerias com outros autores os versos de hits como “A Roda”, conhecido na voz de Sarajane e “Trio Metal”, gravado por Daniela Mercury. Também criou os acordes de “Fricote”, primeiro sucesso de Luiz Caldas e “Rapunzel”, faixa consagrada pela rainha do axé.

A convite da Orquestra Bravi, Moura está passando a semana em Londrina para reger o concerto junino do grupo londrinense que executará nesta quinta-feira (13). “Por incrível que pareça esta é a primeira vez que acontece um concerto no Brasil com todos os arranjos criados por mim. Sou visto com preconceito por quem faz música erudita por ter participado ativamente da axé music. E os músicos populares também estranham o fato de eu ter migrado para o erudito apesar do sucesso que fiz com música popular”, afirma.

Alfredo Moura:  “Por incrível que pareça esta é a primeira vez que acontece um concerto no Brasil com todos os arranjos criados por mim"
Alfredo Moura: “Por incrível que pareça esta é a primeira vez que acontece um concerto no Brasil com todos os arranjos criados por mim" | Foto: Ricardo Chicarelli

O intercâmbio visto com estranheza com quem olha de fora é encarado como natural pelo músico baiano. “Nunca tive esse tipo de preconceito. Meu avô era regente de orquestra e tocava música clássica ou de igreja. Já minha mãe era cantora e regente e adorava música popular. Cresci dentro desta mistura”, contextualiza.

A influência da herança musical começou a se manifestar ainda na infância. “Com oito anos de idade comecei a estudar piano. Na adolescência já integrava bandas de rock e na juventude passei a fazer parte do conjunto que tocava em um dos maiores estúdios de Salvador”, conta. Foi nesse período que conheceu Luiz Caldas e que teve início o movimento musical baiano que viria a ser batizada de axé music. “Acabei me tornando arranjador de algumas das músicas que eram gravadas no estúdio, incluindo 'Fricote', hit com o qual Luiz Caldas ficou conhecido em todo o Brasil e que é considerada o marco inicial da axé music”, relata.

Moura também assina os arranjos de outros álbuns que tiveram um grande êxito comercial. “Fui arranjador dos discos 'Feijão com Arroz', de Daniela Mercury, que teve como destaque a faixa 'Rapunzel', e 'Elétrica.' Também arranjei discos de Carlinhos Brown e Sarajane, para quem compus em parceria com outros músicos a faixa 'A Roda', que fez muito sucesso em todo o Brasil, e participei da gravação do álbum 'Brasileiro', com o qual Sergio Mendes ganhou o Grammy Awards em 1992”, cita.

Apesar de todo o sucesso alcançado no mainstraem da música brasileira, a paixão pelo erudito acabou falando mais alto na vida do maestro. Após ter concluído mestrado em Jazz Arrangement and Composition pela University of Luuisville (KY-USA) e de ter morado e trabalhado como músico na Europa e nos Estados Unidos, Moura atualmente trabalha como professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) - instituição onde fez doutorado em Composição Musical. “Nunca ganhei um centavo com música erudita, mas compor e arranjar músicas para orquestras me traz uma satisfação pessoal indescritível e por isso não penso em voltar a trabalhar com música popular , conclui.

Serviço:

“Concerto Comemorativo de São João”, com Orquestra Acadêmica Bravi a partir de arranjos de Alfredo Moura

Quando – Quinta-feira (13), às 19 horas

Onde - No Centro Cultural Sesi/AML (R. Maestro Egídio Camargo do Amaral, 130, em frente à Concha Acústica)

Quanto – Os ingressos serão trocados por 1 litro de leite integral, que será doado ao Lar de Idosos Maria Tereza Vieira

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