Trilha faz referência ao instinto
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terça-feira, 05 de junho de 2001
Ranulfo PedreiroDe Londrina 
A multiplicidade de referências incutida na trilha sonora de Ethos, o espetáculo anterior do Ballet de Londrina, ressurge em Nunca com outras características. A dupla de compositores Marco Tureta e Henrique Bittencourt desligou-se dos fragmentos antropológicos para entrar no labirinto obscuro onde habitam os sentimentos humanos. A música de Nunca surge mais intuitiva e menos racional.
Por isso o resultado é também mais difuso e ilógico, carregando uma abstração já presente em Ethos, só que mais incisiva. Nunca se assemelha a um turbilhão hora agressivo, hora tímido. Um conflito emocional em que a sexualidade pode ser o protagonista. Nesse caldeirão transparecem a rejeição, a raiva, a dor, a agonia, a agressividade, o desejo, a solidão, a carência...
Dividida em várias partes, a trilha de Nunca inclui desde vozes dispersas ou difusas, reflexos adaptados do cantochão medieval, tempero de rock, jazz, blues, funk e tango, entre outros. A música traz ambientações diversas para embasar o espetáculo visualmente. As composições obedecem a um fluxo ininterrupto: não há estrofes nem refrões.
Como uma montanha russa, a trilha desliza por altos e baixos surpreendendo com momentos nervosos, carregados com guitarras pesadas e percussões salientes, sopros com improvisos nevrálgicos e distorções. Em contrapartida, surgem trechos introspectivos: às vezes com a cítara, incutindo tempero não-ocidental, às vezes com um piano solitário e melancólico. A inclusão de um tango é coerente. O gênero costuma aprofundar as contradições sentimentais além da simples conquista amorosa.
A explosão de um trecho vocal em que a palavra nunca é repetida insistentemente parece buscar uma saída para este amálgama doloroso. A negação veemente pode ser uma tentativa de escapar do redemoinho de sensações. Em alguns momentos a percussão provoca efeitos primitivos, tribais. A estrutura propositalmente confusa de Nunca parece uma referência ao instinto.
Representar esse torvelinho, incluindo preocupações coreográficas a música foi feita exclusivamente para o espetáculo , não é tarefa das mais fáceis. Mais uma vez Marco Tureta e Henrique Bittencourt acertaram a mão.


