Trilha de Philip Glass é uma das mais belas do cinema contemporâneo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Mauro Dias
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quarta-feira, 07 de abril de 1999
Por Mauro Dias
São Paulo, 08 (AE) - Se o filme de Martin Scorsese não chega a corresponder às expectativas, a trilha sonora de Philip Glass vai além delas. É a obra mais densa e matizada do compositor minimalista, que prefere não ser chamado de minimalista - compositor contemporâneo, acha ele que é rótulo a fazer-lhe mais justiça. Glass trabalha com cânones minimalistas. Estabelece módulos melódicos muito breves, reincidentes, que parecem repetitivos; na verdade, vão sendo modificados a cada aparição, ou a cada grupo modular (sempre módulos) de aparição.
A música de "Kundun" não foge a isso, mas apresenta um número maior e mais variado de módulos e grande (não grandiosa) riqueza orquestral. Michael Riesman rege o grupo de 13 músicos: corne inglês, flauta, oboé, piccolo, harpa, clarinete, trombone baixo, piano, celesta, fagote, contrafagote combinam-se a cornetas tibetanas, címbalos, sintetizador, percussão e, num momento, às vozes de coro de monges tibetanos.
São sempre inserções delicadas e nitidamente a serviço da cena que ilustram, mas seu caráter descritivo não impede que a música tenha vida autônoma. Os 60 minutos de música do disco "Kundun" (WEA) suscitam reflexão, falam ao espírito, aos sentidos sutis, aos sentimentos nobres. É extraordinário como um compositor que praticamente abriu mão da melodia (há as breves melodias que conformam os módulos melódicos) possa soar tão clássico - no sentido que se dá à palavra "clássico" quando se a aplica à música.
Mas isto ocorre na trilha de Kundun também porque, aqui, Philip Glass deixou a rigidez construtivista escapar um pouco das amarras. Chegou mesmo a escrever uma peça de extração debussyana, Patala, que combina palhetas e sintetizador. A delicadeza do desenho é de rigor oriental. Notável, também, a descrição musical do personagem Lord Chamberlain, em cuja personalidade coabitam a firmeza de caráter e uma delicadeza intrínseca - a música conta isso. Vozes místicas - No momento mais denso, os sopros graves, a percussão gravíssima, as vozes místicas combinam-se para criar a atmosfera apreensiva de "Escape to India", mais uma pequena jóia a destacar-se no seio da obra formidável. Talvez seja a peça mais plena de sugestões escrita por Philip Glass, um compositor acostumado a escrever para cena - cinema, teatro, dança. Com certeza, "Kundun" é uma das mais belas e expressivas trilhas sonoras do cinema contemporâneo.