Tributos a Ray Charles
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de julho de 2005
Lauro Lisboa Garcia<br> Agência Estado 
O sucesso da cinebiografia de Ray Charles (1930-2004) fez intensificar a procura por sua música sublime. Só que poucos títulos originais do ''Genius'' que inventou a soul music foram reeditados no Brasil. Nenhum depois de sua morte. Para compensar em parte essa deficiência, há boas compilações e tributos recém-lançados. Um deles é a segunda parte da trilha de ''Ray'', tão boa quanto a primeira, com canções que tocaram no filme e outras ''inspiradas'' por ele. É o melhor dos lançamentos em CD com sua música.
Se a primeira reunia seus maiores hits, esta tem outros clássicos, como ''Rockhouse Parts 1 & 2'', ''I Believe to my Soul'' e ''Busted'', e ressalta a versatilidade do intérprete em incursões por jazz, country e rhythm'n'blues. Há jóias raras de seu cancioneiro em registros dos anos 60, como ''Baby'', ''It's Cold Outside'', malemolente dueto com Betty Carter, e três gravações feitas em 2003 especialmente para o filme: ''Every Day I Have the Blues'', ''Drown in my Own Tears/You Don't Know me'' e ''Baby Let me Hold Your Hand''.
O último álbum de estúdio do cantor (''Genius Loves Company'', vencedor do Grammy), distribuído pela cadeia de cafeterias Starbucks, vendeu mais de 750 mil cópias nos Estados Unidos. Lançado no País pela EMI, o álbum reúne bons duetos de Charles com ídolos do soul, do blues, do pop, do country e do jazz, como Norah Jones, Diana Krall, B.B. King, Elton John, Willie Nelson, Gladys Knight e outros.
Durante as cinco décadas que se manteve em evidência Charles passou por todos esses gêneros com naturalidade e o fez até o fim. Mas o CD não é digno de sua voz majestosa. Esta aliás, é o que se salva entre canções de qualidade inferior e arranjos diluidores de sua arte.
Se a presença de Charles atribui crédito a uma gravação, por mais descartável que seja, o inverso é mais difícil de acontecer. As canções que ele imortalizou nem sempre caem bem em vozes alheias - constantemente sujeitas a perder em comparações. Na onda de oportunidades a ser exploradas, saem na sequência outros dois tributos. Um deles já está nas lojas brasileiras: é ''That's What I Say - John Scofield Plays the Music of Ray Charles'' (Universal). O outro, ''Inspired by Genius'', sai por aqui no dia 1.º de agosto pela EMI.
Scofield, em mais uma de suas inusitadas investidas, é exceção entre os que rendem homenagem a Charles. Fez um excelente álbum com clássicos infalíveis - como ''What'd I Say'', ''I Can't Stop Loving You'' (com belíssimo vocal de Mavis Staples), ''Hit the Road Jack'', ''Unchain my Heart'' e ''Georgia on my Mind'' (esta em guitarra-solo) - e temas menos desgastados. Algumas versões são instrumentais e nenhuma das 13 repete a formação da banda. É uma surpresa a cada faixa.
Por motivos óbvios, todo cantor negro surgido depois de Charles passa por sua poderosa cadeia de influências. E não só eles. Por isso não é estranho que ''Inspired by Genius'', que abre com o rhythm'n'blues ''Mess Around'', com The Animals, tenha mais presença de astros do pop-rock do que de outro gênero. São todas gravações já existentes desde os anos 60.
The Animals também aparecem cantando ''The Right Time''. A célebre recriação de Joe Cocker para ''Unchain my Heart'' (que até Roberto Carlos gravou em português nos anos 60), é outro resultado positivo. Cocker e Eric Burdon (dos Animals), tidos como brancos de voz negra, são dois exemplos de bom uso das influências de Charles. Roqueiros veteranos como Jerry Lee Lewis, Eddie Cochran, Manfred Mann, Paul McCartney e The Band estão entre os intérpretes de outras das 21 faixas, que também trazem expoentes do soul e do jazz.
Recentemente a EMI também lançou ''Blue Note Plays Ray Charles'', com músicos como Jimmy McGriff, Stanley Turrentine, Grant Green, Bill Henderson e Jimmy Smith esbanjando suingue nas melhores faixas. O próprio Charles faz dueto com Lou Rawls em gravação dispensável de ''That's Where It's at''.
Charles pode também ser visto/ouvido no DVD ''Live at Montreux 1997'', recém-lançado pela ST2 Vídeo. Fazendo um significativo apanhado da carreira ele começa com jazz e termina com soul. Insuperável.


