ReproduçãoLegado
musical
de Elis
inspira
discos de
Joyce
(detalhe)
e do grupo
VesperTRIBUTOMANIA

Febre de homenagens ataca
artistas da MPB reforçando
a onda de gravar discos inteiros
com o repertório do ídolo
Nelson Sato
A carreira de um músico se constrói com discos oficiais, gravações ao vivo, coletâneas de sucessos e eventualmente registros acústicos, certo?
Certo, em termos. Um novo formato já pode ser acrescentado à linha de produção dos artistas brasileiros: o álbum-tributo. O gênero prolifera no mercado fonográfico insinuando-se como parte integrante de discografias, sejam elas de famosos ou de novatos.
Basta uma sondagem pelos catálogos e agendas de gravadoras para constatar o fenômeno, que se revela gritante na quantidade de CDs lançados de 1 ano para cá e os previstos para chegarem às lojas até o Natal. É como se os cantores e cantoras não se contentassem mais em homenagear os ídolos-compositores apenas em shows ou através da regravação de uma ou outra canção, obrigando-se a dedicar repertórios integrais às suas obras.
ReproduçãoSandra de Sá
prepara CD só
com versões de
músicas de Tim MaiaEntre os projetos em andamento há, inclusive, casos de múltiplas homenagens. O legado de Elis Regina, por exemplo, inspira dois trabalhos: um da cantora Joyce, que lança ainda este mês o CD Astronauta - Canções de Elis; e outro do grupo paulistano Vesper, que faz sua estréia no selo Dabliú com um álbum recheado de canções eternizadas pela intérprete gaúcha.

Joyce gravou seu disco em Nova York. O CD será lançado simultaneamente no Brasil e no exterior graças a uma co-produção que uniu as gravadoras Omagatoki (do Japão), Blue Jackel (dos Estados Unidos) e a parceria local Pau Brasil-Eldorado.
Elis é a única mulher a merecer tributo na atual safra de lançamentos. Já, entre os marmanjos, o vasto elenco abriga de Tim Maia a Raul Seixas passando por Tom Jobim e outros notáveis. Nos corredores da Warner, fala-se inclusive de um projeto de Gilberto Gil voltado para o legado de Bob Marley.
‘‘Mas por enquanto ele não oficializou essa idéia’’, informa a assessora de imprensa da gravadora Márcia Moraes. Na mesma gravadora, há um outro trabalho desse tipo sendo produzido. É o CD Eu Sempre Fui Sincero, Você Sabe Muito Bem, que a cantora Sandra de Sá prepara só com versões de músicas de Tim Maia.
O cantor paraibano Zé Ramalho, por sua vez, está vasculhando o baú de Raul Seixas para compor seu próximo disco - todo ele devotado à fase mística do Maluco Beleza. Zé planeja gravar canções dos quatro primeiros álbuns de Raulzito - Krig-Ha Bandolo!, Gita, Novo Aeon e Há Dez Mil Anos Atrás.
ReproduçãoFase mística de Raul Seixas será resgatada por Zé Ramalho no próximo discoO compositor Noel Rosa é outro que virou objeto de tributos. No ano passado Ivan Lins e Johnny Alf já haviam revisitado os clássicos do autor de ‘‘Palpite Infeliz’’. Agora é a vez de suas músicas menos conhecidas receberem interpretação de Cristina Buarque e Monarco.
A dupla, acompanhada por um bando de músicos capitaneado por Henrique Cazares, planeja transformar em disco o espetáculo musical ‘‘Noel Sobe o Morro’’, que acaba de encerrar a primeira temporada em São Paulo. A idéia é gravar as parcerias de Noel com bambas cariocas da década de 30 como Cartola, Canuto e Ernani Silva.
E por falar nos antigos, convém lembrar que dois deles foram reverenciados em discos no ano passado: Lamartine Babo, através da cantora Marcia Salomon, e Pixinguinha, por meio do trombonista Bocato. Outra lenda contemplada pela atual onda de homenagens é o baiano Dorival Caymmi.
Ele é saudado no recém-lançado CD Canções de Caymmi (Velas), no qual a cantora Jussara Freire passeia por 14 temas do mestre, cuja obra aliás já havia abastecido todas as faixas do último trabalho de seu filho Dori Caymmi, lançado no ano passado. O rei do baião Luiz Gonzaga, figura onipresente no CD de 97 de Dominguinhos, é outro que vira e mexe impõe sua influência sobre os vivos.
Sua sombra se fez presente em Forró de Cabo a Rabo, o novo álbum de Luiz Caldas. Inventor do ‘‘fricote’’ e de outros modismos do verão baiano, Caldas optou por manter fidelidade às gravações originais do mestre e amigo privilegiando as canções representativas da faceta brejeira e jocosa do sanfoneiro como ‘‘O Xote das Meninas’’, ‘‘Danada de Bom’’ e ‘‘Paraíba’’ (a primeira música que ele conheceu de Gonzagão).
Iluminando gerações, Tom Jobim não poderia faltar nesse banquete de exumações musicais. Já cantado em prosa e verso em inúmeros álbuns alheios, o repertório do maestro é matriz agora de um novo projeto do guitarrista mineiro Toninho Horta, apelidado de ‘‘o rei da harmonia’’ pelo próprio Tom. O músico voltou há pouco de Nova York, onde foi gravar o CD From Tom to Tom, que traz 8 composições de autoria do homenageado.
A tributomania prospera.

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