Duas. Somente em duas faixas o ouvinte irá precisar recorrer ao encarte para poder conhecer as letras. São elas: ‘‘Senões’’ e ‘‘Desfigurado’’, canções incluídas no disco ‘‘Ney Matogrosso interpreta Cartola’’. As 10 outras faixas são conhecidas, algumas regravadas por zilhões de intérpretes e/ou cantadas à exaustão nos bares da vida. ‘‘As Rosas Não Falam’’ é o exemplo mais gritante da obviedade de repertório que Ney Matogrosso escolheu para render tributo a Angenor de Oliveira (1908-1980), o grande Cartola.
Claro, não se pode questionar a dignidade artística de criador e criatura. Acontece que mesmo cercado por músicos excelentes, Ney Matogrosso ousou quase nada ao reler peças bastante conhecidas de Cartola que, em 72 anos de vida, compôs perto de 500 músicas – algumas em parceria com compositores do quilate de Carlos Cachaça e Elton Medeiros, entre outros.
Certamente a escolha se deveu mais à memória afetiva do que propriamente a uma pesquisa mais apurada do cancioneiro do homenageado. Dizer que Ney está cantando maravilhosamente bem é quase uma máxima. Agora, afirmar que a empreitada teve êxito por se tratar de uma homenagem – certamente sincera – a um dos gênios da MPB já é forçar a barra. Trata-se de um disco feito sob encomenda para fãs de Ney e apreciadores das canções mais populares de Cartola. Por um lado, ‘‘Ney Interpreta Cartola’’ tem seu, digamos, caráter didático – uma boa amostragem a leigos da obra de Cartola. Mas para quem é razoavelmente bem informado sobre música brasileira, o álbum é inócuo.
A idéia do projeto ‘‘Cartola’’ surgiu quando o escritor Bené Fonteles havia conluído ‘‘Ousar Ser’’ – um ensaio sobre a trajetória artística e pessoal de Ney Matogrosso, com fotos de Luiz Fernando Borges da Fonseca. O lançamento aconteceu mês passado. Fonteles sugeriu que Ney fizesse um CD a ser encartado com o livro. ‘‘Imediatamente me veio o nome de Cartola à cabeça’’, explica o cantor. E assim foi feito. O disco foi registrado pela gravadora Universal.
Ney Matogrosso explica que a princípio haveria apenas quatro shows para marcar o lançamento do livro. Só que o espetáculo caiu nas graças do público – aliás como sempre acontece – e está rodando o Brasil afora. A seguir a entrevista que o cantor concedeu com exclusividade à Folha2, por telefone. Entre as novidades, ele anuncia para o próximo ano o lançamento de um disco só com letras inéditas de Cazuza.
Eu gostaria que você falasse um pouco do livro ‘‘Ousar Ser’’, em que Bené Fonteles faz um ensaio sobre sua trajetória artística e pessoal. E também o porquê de vir encartado o CD do Cartola
A idéia do livro é antiga. A gente já até havia tentado realizar antes, mas não conseguimos. Agora deu certo porque o Bené, que já fez um livro com o Gil, surgiu com um convite dizendo que tinha como realizar o livro através da Universidade de Brasília, o que não interferiria no conteúdo artístico. E isso me interessou porque as editoras em geral interferem, né? E quando o livro estava organizado, o Bené perguntou se eu não poderia colocar músicas. Imediatamente veio o Cartola à cabeça.
Não seria mais apropriado, por mais paixão que tenha por Cartola, fazer uma coletânea ou mesmo releitura de músicas expressivas de sua carreira?
Eu não queria releitura de nada, queria algo novo.
Então o Cartola foi escolhido por quê?
Por que para mim cantar Cartola é algo novo. Gravar esse disco foi muito atraente, uma novidade para mim.
Cartola sempre foi alvo de regravações, releituras diversas, tributos como a Leny Andrade fez, por exemplo. O que, na sua opinião, você acrescentou de novo?
Ora, eu dou o meu ponto de vista que é diferente, por exemplo, do ponto de vista da Leny ou de quem já fez isso. Acho que cada um que canta Cartola oferece algo seu para ser diferente... A obra do Cartola permite ter várias leituras.
Por que privilegiar canções conhecidas...
(interrompendo) Eu não quis nada, por exemplo, que se relacionasse à Mangueira...
Como estava lhe perguntando, por que pegar basicamente canções conhecidas, saturadas? Por que não pegar o ‘‘lado B’’ do Cartola?
Que lado B?
Canções pouco conhecidas do Cartola, é isso!
Na verdade o disco tem duas canções que eu não conhecia: o ‘‘Senões’’ e ‘‘Desfigurado’’.
E como essas músicas chegaram às suas mãos?
Eu comecei a catar gravações do Cartola... Queria ouvir o Cartola cantando. Não sei quantos discos ouvi porque não há muitos trabalhos dele disponíveis. Acho que tive uns cinco discos na minha mão.
A Dona Zica não poderia ter ajudado?
Depois que a coisa estava na reta final, uma neta dele me falou de uma música que acabou não entrando...
Qual?
Não me lembro. Sei que é uma música que fala do fato de subir no palco e cantar... Eu não me lembro realmente dela.
Ângela Maria, Chico Buarque, Tom Jobim, Villa-Lobos. Pelo jeito CDs-tributos são imprescindíveis em sua discografia, não?
Eu não olho desse maneira, não olho como tributo.
E olha como?
Eu olho como... É eu estar colocando na atualidade gente de talento indiscutível. Esse é meu ponto de vista. É trazer para atualidade essas pessoas para que a nova geração tenha contato com a obra de determinado artista.
Dentro dessa linha de raciocínio, quem seria merecedor ainda de uma homenagem de sua parte?
Há muita gente que se eu pegar eu poderia fazer um trabalho nesse sentido, mas assim, agora, não saberia lhe responder. O Cartola não era uma coisa que um dia eu pretendesse fazer um tributo. Surgiu a necessidade de se colocar música no livro e veio imediatamente Cartola na minha mente e eu assumi plenamente a idéia.
Luli e Lucina, por exemplo, teriam um chamariz comercial como Cartola? Elas são compositoras importantes na sua carreira...
Sim, elas são. Tive essa idéia, mas elas não formam mais uma dupla. Elas achavam que juntar para fazer músicas para um disco não corresponderia à verdade. E eu acatei, respeitei.
Em ‘‘Olhos’’ de Farol’’ dava a impressão que você estaria voltando ao seu habitat natural, o pop rock. Digo habitat natural...
(interrompendo) Meu habitat natural é música. Sou um intérprete e transito com liberdade por vários estilos.
Sim, querido, mas o que eu queria dizer é que a fonte em que você bebeu quando surgiu foi o pop rock. E ‘‘Olhos do Farol’’ rendeu até um disco ao vivo, belo por sinal. A volta a discos mais intimistas seria uma ‘‘recaída’’?
Como lhe disse, não sou compositor, sou intérprete e como tal transito com muita liberdade dentro de tudo que a música brasileira oferece como possibilidade. Tenho uma ligação muito grande com a música. Minha formação musical, vamos chamar assim, vem do período entre as décadas 40 e 60...Eu faço isso não por não ter outra alternativa, faço por prazer pessoal. Agora ao mesmo tempo em que gosto dessa coisa intimista, estou preparando um disco só com músicas inéditas do Cazuza.
Sério? Me conta como é esse projeto do Cazuza?
Será o próximo disco. São letras que alguns compositores estão colocando música. Tenho três compositores que eu posso dizer quem são porque já fizeram as canções: a Ângela Rô Rô, o Lobão e o George Israel.
Para quem mais você sugeriu ou vai sugerir fazer canções?
Alguns integrantes dos Titãs estão interessados, Lenine, Paulinho Moska.
Passa pela sua cabeça inaugurar parcerias com compositores mais tradicionais da MPB, como Chico Buarque e Caetano Veloso?
Não. São mais compositores dessa linha pop.




Repertório de ‘‘Ney Interpreta Cartola’’
- ‘‘O Sol Nascerá (A Sorrir)’’ (Cartola-Elton Medeiros)
-‘‘Sim’’ (Cartola-Martins)
- ‘‘Cordas de Aço’’ (Cartola)
- ‘‘Corra e Olhe o Céu’’ (Cartola-Dalmo Castello)
- ‘‘As Rosas Não falam’’ (Cartola)
- ‘‘Acontece’’ (Cartola)
- ‘‘Tive Sim’’ (Cartola)
- ‘‘O Mundo é um Moinho’’ (Cartola)
- ‘‘Peito Vazio’’ (Cartola-Elton Medeiros)
- ‘‘Senões’’ (Cartola-Nuno Veloso)
- ‘‘Ensaboa’’ (Cartola)
- ‘‘Desfigurado’’ (Cartola)

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