Tributo em tom feminino
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segunda-feira, 22 de abril de 2002
Nelson Sato Reportagem local 
Os mitos vivos e mortos da MPB devem um caminhão de agradecimentos às cantoras. Sem elas, talvez suas obras durassem o tempo de uma canção no país dos desmemoriados. Todo um catálogo precioso já pode ser reunido só com álbuns gravados por vozes femininas, dedicados integralmente a repertórios de compositores de suas escolhas.
Alguns chegaram às lojas em forma de tributos, outros traziam o mesmo conceito sem assumir o atributo solene. As cantoras Elba Ramalho e Vânia Bastos ampliam esse acervo com seus novos CDs, intitulados respectivamente Elba Canta Luiz (BMG) e Vânia Bastos Canta Clube da Esquina (MZA/Abril Music). Vânia presta sua homenagem não sobre um nome específico, mas sobre um núcleo de compositores que fez história nos anos 70, a legendária turma de Minas Gerais capitaneada por Milton Nascimento e Lô Borges.
Seu CD sopra as velas para os trinta anos do lançamento do álbum Clube da Esquina, do qual regrava 10 das 12 faixas as duas restantes foram pinçadas do segundo volume do álbum, lançado em 1978. Abre o disco cantando à capela, com vozes dobradas, a vinheta Paixão e Fé. Pelo talento, permite ao ouvinte imaginar em seu projeto a ambição de recriar as gravações originais fornecendo-lhes um novo viço.
E é o que ocorre na maior parte das faixas, particularmente em Tudo que Você Podia Ser, cujo desempenho vocal é de fazer cair o queixo de muitas colegas de metiê. No encarte, Vânia conta que o produtor carioca Marco Mazzola foi o responsável pela sugestão de gravar o disco ao vivo no estúdio registrando apenas sua voz, o piano de Luiz Avellar e cordas ocasionais.
A sensação foi indescritível anota ela, que lembra no texto o quanto este repertório marcou sua adolescência. Gravado em três dias, o material revisita clássicos como Paisagem da Janela, Nada Será Como Antes, Um Girassol da Cor do Seu Cabelo, Cais e Nuvem Cigana. Milton Nascimento tem participação especial com vocalizes e cantando o refrão em San Vicente.
Participação especial é o que também destaca o CD Elba Canta Luiz, homenagem da paraibana Elba Ramalho a Gonzagão. Aqui, o rei do baião recebe reinterpretações de gala pela cantora, que é acompanhada pelo trio de Dominguinhos em todas as faixas e ainda de Zeca Pagodinho em O Xamego da Guiomar.
Elba optou pelo repertório menos conhecido do compositor, sem deixar de repassar sucessos como Xote das Meninas e Vem, Morena. A idéia de gravar o disco é antiga, mas se intensificou há pouco mais de um ano quando quase entrou no estúdio e viu-se obrigada a adiar o projeto em razão do lançamento de um trabalho semelhante de Gilberto Gil a trilha sonora do filme Eu, Tu, Eles.
Ao garimpar as 13 canções para o CD, a cantora trouxe à luz não apenas as composições de Luiz Gonzaga mas também as músicas de outros autores que foram imortalizadas por ele, caso de A Sorte é Cega (de Luiz Guimarães), Orélia (Humberto Teixeira, um de seus principais parceiros), Nega Zefa (Severino Ramos e Noel Silva) e outras. Todo o disco é um convite à pista de salão.
Os arranjos de Dominguinhos não fogem às versões originais privilegiando a sanfona, o triângulo e a zabumba. A diversão, a galhofa, a brincadeira, a picardia e o humor nordestinos são a escolha clara de Elba para cantar neste disco escreve Chico César no texto de divulgação. Com o forró universitário ainda em alta, renovando o público para ritmos nordestinos, é possível prever uma trajetória de sucesso para o CD e um empurrão na carreira da cantora.
Revisando mitologias da MPB, Elba e Vânia se safaram de escorregões, o que já é um grande mérito.


