Os mitos vivos e mortos da MPB devem um caminhão de agradecimentos às cantoras. Sem elas, talvez suas obras durassem o tempo de uma canção no país dos desmemoriados. Todo um catálogo precioso já pode ser reunido só com álbuns gravados por vozes femininas, dedicados integralmente a repertórios de compositores de suas escolhas.
Alguns chegaram às lojas em forma de tributos, outros traziam o mesmo conceito sem assumir o atributo solene. As cantoras Elba Ramalho e Vânia Bastos ampliam esse acervo com seus novos CDs, intitulados respectivamente ‘‘Elba Canta Luiz’’ (BMG) e ‘‘Vânia Bastos Canta Clube da Esquina’’ (MZA/Abril Music). Vânia presta sua homenagem não sobre um nome específico, mas sobre um núcleo de compositores que fez história nos anos 70, a legendária turma de Minas Gerais capitaneada por Milton Nascimento e Lô Borges.
Seu CD sopra as velas para os trinta anos do lançamento do álbum ‘‘Clube da Esquina’’, do qual regrava 10 das 12 faixas – as duas restantes foram pinçadas do segundo volume do álbum, lançado em 1978. Abre o disco cantando à capela, com vozes dobradas, a vinheta ‘‘Paixão e F钒. Pelo talento, permite ao ouvinte imaginar em seu projeto a ambição de recriar as gravações originais fornecendo-lhes um novo viço.
E é o que ocorre na maior parte das faixas, particularmente em ‘‘Tudo que Você Podia Ser’’, cujo desempenho vocal é de fazer cair o queixo de muitas colegas de metiê. No encarte, Vânia conta que o produtor carioca Marco Mazzola foi o responsável pela sugestão de gravar o disco ao vivo no estúdio registrando apenas sua voz, o piano de Luiz Avellar e cordas ocasionais.
‘‘A sensação foi indescritível’’ – anota ela, que lembra no texto o quanto este repertório marcou sua adolescência. Gravado em três dias, o material revisita clássicos como ‘‘Paisagem da Janela’’, ‘‘Nada Será Como Antes’’, ‘‘Um Girassol da Cor do Seu Cabelo’’, ‘‘Cais’’ e ‘‘Nuvem Cigana’’. Milton Nascimento tem participação especial com vocalizes e cantando o refrão em ‘‘San Vicente’’.
Participação especial é o que também destaca o CD ‘‘Elba Canta Luiz’’, homenagem da paraibana Elba Ramalho a Gonzagão. Aqui, o rei do baião recebe reinterpretações de gala pela cantora, que é acompanhada pelo trio de Dominguinhos em todas as faixas e ainda de Zeca Pagodinho em ‘‘O Xamego da Guiomar’’.
Elba optou pelo repertório menos conhecido do compositor, sem deixar de repassar sucessos como ‘‘Xote das Meninas’’ e ‘‘Vem, Morena’’. A idéia de gravar o disco é antiga, mas se intensificou há pouco mais de um ano quando quase entrou no estúdio e viu-se obrigada a adiar o projeto em razão do lançamento de um trabalho semelhante de Gilberto Gil – a trilha sonora do filme ‘‘Eu, Tu, Eles’’.
Ao garimpar as 13 canções para o CD, a cantora trouxe à luz não apenas as composições de Luiz Gonzaga mas também as músicas de outros autores que foram imortalizadas por ele, caso de ‘‘A Sorte é Cega’’ (de Luiz Guimarães), ‘‘Orélia’’ (Humberto Teixeira, um de seus principais parceiros), ‘‘Nega Zefa’’ (Severino Ramos e Noel Silva) e outras. Todo o disco é um convite à pista de salão.
Os arranjos de Dominguinhos não fogem às versões originais privilegiando a sanfona, o triângulo e a zabumba. ‘‘A diversão, a galhofa, a brincadeira, a picardia e o humor nordestinos são a escolha clara de Elba para cantar neste disco’’ – escreve Chico César no texto de divulgação. Com o forró universitário ainda em alta, renovando o público para ritmos nordestinos, é possível prever uma trajetória de sucesso para o CD e um empurrão na carreira da cantora.
Revisando mitologias da MPB, Elba e Vânia se safaram de escorregões, o que já é um grande mérito.

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