TRIBUTO CHEIO DE BOAS INTENÇÕES
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terça-feira, 04 de dezembro de 2001
Antônio Mariano Júnior<br>De Londrina 
Vez em quando é bom dar uma olhada no que Emílio Santiago anda fazendo de sua vida artística. Entre muitos equívocos as intermináveis aquarelas, aquela série de discos que aglutinava canções apropriadas para elevadores e antesalas de clínicas homeopáticas , às vezes ele acerta. Ou quase. É o caso de ''Um Sorriso nos Lábios'', 28º disco em que o ex-intérprete vigoroso e agora cantor formatado presta tributo a Gonzaguinha nos 10 anos de sua morte. Em 16 faixas, o cantor apresenta um resumo consistente até da obra de Luiz Gonzaga Júnior, que cantava mal pra cacete, mas deixou um punhado de canções clássicas graças às vozes de outros artistas.
Emílio conheceu Gonzaguinha no final da década de 70, no nordeste durante uma das série do memorável Projeto Pixinguinha. ''Falavam que ele era estourado, fechado e para minha surpresa ao nos encontrarmos foi muito simpático. Pedi uma música para gravar e tempos depois ele mandou 'No Balanço do Trem' (77)'', disse o cantor em entrevista, por telefone, à Folha2. Depois dessa, Emílio viria a registrar outras três canções de Gozanguinha: ''Não Quero mais chorar'' (78) e ''Guerreiro Coração'' (80) e Nós ou Ninguém (81).
Tudo bem, Emílio Santiago tem apego pela obra de Gonzaguinha. Mas não o suficiente para poder gravar um disco-tributo como se fosse um compositor imprescindível em seu repertório de estúdio haveria mais coerência se Maria Bethânia ou Simone fizesse tal projeto tamanha a quantidade de canções embutidas nas respectivas discografias.
Santiago se defende do aparente oportunismo com uma resposta mais que diplomática. ''Prefiro ser chamado de oportunista do que deixar a obra de Gonzaguinha cair no esquecimento'', diz. Ok, ok! ''Um Sorriso nos Lábios'', vamos reconhecer, soa sincero mesmo que tenha sido planejado juntamente com a gravadora Sony e gravadora quando interfere ou faz sugestão no processo criativo de um artista...
O repertório abrange as temáticas com as quais o autor marcou presença na história da MPB. Ou seja, os lados romântico, contestador, sambista, existencialista estão bem distribuídos pelo disco. Eis o grande acerto e também a grande surpresa: Emílio foge da obviedade na seleção das músicas. Por outro lado, os arranjos roçam o convencional. Outro ponto favorável a Emílio: ele está cantando, vejam só, com vontade laivos do grande interprete que um dia foi. ''Fiquei à mercê do compositor'', analisa ele.
A faceta político-social é a que Emílio Santiago se diz mais admirado. ''Ele ia fundo nessas questões e as canções de cunho político-social têm muito a ver nos dias de hoje'', ressalta. Mas Emílio acaba se saindo melhor mesmo em canções românticas a erótica e bela ''Avassaladora'' é um dos melhores momentos do disco e em sambas ''E Vamos à Luta'', faixa-de abertura, dá as boas-vindas ao disco.
Claro, não poderiam faltar os apelos comerciais. E lá estão as saturadas ''Explode Coração'' , ''O que é o que é?'', entre outras. Mas tais canções não tiram a relevância de ''Um Sorriso nos Lábios'' já que estão diluídas entre bons achados. Para fãs de Emílio, o disco-tributo está de bom tamanho. Agora quem realmente quer conhecer o ''Lado B'' da obra de Gonzaguinha é melhor dar uma passada de ouvido em ''Achados e Perdidos'', sincera, consistente e marcante homenagem que Selma Reis gravou em 96. Não se trata de mera comparação; trata-se de um serviço de utilidade pública.


